Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Trabalhar mais

No site da RTP, assisti a uma entrevista da Antena 1 a Maria de Lurdes Rodrigues, no programa “Este Sábado”, no dia 5/9/2009.
 
Fica o link, caso ainda funcione:
http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=3468&e_id=&c_id=1&dif=radio
 
Ela fala, fala, fala, e para quem a ouve mas não percebe do assunto, até fala muito bem.
 
Já no fim, o jornalista questiona-a sobre o Português e a Matemática.
 
Gostei, particularmente, sobre a parte da Matemática, ou não fosse eu dessa área. Em especial sobre a brilhante conclusão da senhora ministra sobre o sucesso na disciplina: é preciso estudar e trabalhar mais. Ela não o disse claramente, talvez por vergonha, mas parece-me que estava a falar dos alunos. E deu o exemplo dos miúdos que, quando vão para as explicações, isto é, quando são obrigados a trabalhar mais, passam do insucesso ao sucesso. Terá descoberto a pólvora? Em vésperas de eleições, não usou a lenga-lenga de que os professores é que precisam de trabalhar mais, como era seu hábito. Não há nada como a vizinhança de eleições para mudar radicalmente a orientação do discurso desta gente...
 
A questão é: os professores sempre souberam e avisaram que esse é o verdadeiro problema da Matemática; assim sendo, o que é que, concretamente, foi feito para combater esse problema?
 
Nada! Inventou-se um Plano de Acção da Matemática para atirar areia para os olhos do povo e entreter as escolas a apanhar migalhas. Pior: ofereceram-se computadores com Internet aos jovens, para poderem passar a vida a jogar e a navegar em redes sociais em vez de estudarem...
 
Sobre o Português, chegou-lhe aos ouvidos que um dos impedimentos para a resolução de problemas de Matemática é a interpretação da língua materna. Novidade? Só se for para ela, que vive à margem da realidade.
 
Não há Plano Nacional de Leitura que valha a família. O problema com o Português – tal como maior parte dos problemas na Educação – não se resolve na escola, mas em casa. Em lares onde os livros, os jornais e a leitura estejam banidos, não há escola que chegue para resolver o problema. Tal como tudo o resto, a solução passa por exigir às famílias uma mudança radical de postura e de hábitos.
publicado por pedro-na-escola às 14:43
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

O jogo dos critérios de correcção

Este ano, fui corrector dos exames nacionais de Matemática do 9º ano. Não querendo inventar muito, eu diria que é possível fazer um estudo prévio de impacte percentual de alguns dos critérios de classificação. Isto é, estatisticamente, consegue-se prever, com alguma óbvia margem de erro, o efeito benevolente de alguns dos critérios. Uns pontinhos aqui, uns pontinhos ali, alargados à escala nacional, traduzidos em percentagem, conseguem fazer subir a taxa de sucesso. Não estou a insinuar que alguém fez este estudo estatístico, ou que há alguma espécie de manipulação algures, mas, considerando a honestidade que eu, a título pessoal, não reconheço na equipa do Ministério da Educação, não consigo evitar pensar como isto é possível.
 
É que, depois de corrigir e classificar os exames, fiquei com a nítida sensação que as provas dos exames nacionais são umas insignificâncias. Não interessa se são fáceis ou difíceis, bem ou mal concebidas. O que faz a diferença, são os critérios de classificação!
 
Paralelamente, parece que, nas reuniões do GAVE com os supervisores, procurou-se não dar espaço para que fossem colocadas muitas dúvidas ou para que se fizessem ouvir vozes (que fora muitas) discordantes e escandalizadas. E o GAVE deu orientações aos supervisores para que, nas suas reuniões com os professores correctores, também não fosse dado espaço para discussão, sendo que as ordens superiores são para cumprir cegamente. Uma série de “complementos” aos critérios de classificação, muitos deles recebidos de boca aberta, foram transmitidos exclusivamente por via oral, não havendo registo escrito (excepto nos apontamentos dos correctores, claro).
 
Quanto à benevolência dos critérios de classificação e dos seus “complementos” orais, houve, de facto, uma tendência crónica para pontuar “raciocínios”, mesmo que as perguntas fossem respondidas incorrectamente. É qualquer coisa do género de pagar a um engenheiro civil por ter feito uma coisa com ligeiras parecenças com uma ponte, só porque tem um tabuleiro e uns pilares, mesmo que não aguente com uma bicicleta e caia à menor rabanada de vento. Chama-se a isto premiar coisas mal feitas, ainda que parecidas. Na Matemática não deveria ser assim, por ser uma disciplina mais objectiva, mas, realmente, a objectividade era apenas para os critérios das perguntas de escolha múltipla.
publicado por pedro-na-escola às 08:46
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Não foi bem 63,8%

Consta por aí que houve 63,8% de sucesso no exame nacional de Matemática em 2009. Que até aumentou, pois no ano passado teria sido apenas 55,1%.
 
Eu diria que não foi bem assim.
 
Ora, numa escola como a minha, cerca de um terço dos alunos do 9º ano frequenta um CEF e, por isso, não fez o exame nacional. Seria de esperar que, caso estes alunos do CEF fizessem o exame nacional do 9º ano, a esmagadora maioria teria negativa. Em 100 alunos, 63,8 tiveram positiva, mas estes 100 alunos não são o total, pois representam, apenas, dois terços dos alunos do 9º ano, ou seja, os que estão no currículo regular. Assim, haveria, ao todo, 150 alunos, 100 no currículo regular e 50 no CEF. Destes 150 alunos, 63,8 teriam sucesso no exame nacional de Matemática, que, em percentagem, corresponderia a 42,5% de sucesso.
 
Mas, não querendo ir tão longe, consideremos que apenas um quarto dos alunos do 9º ano frequenta um CEF. Seguindo o mesmo raciocínio, havendo 100 alunos no currículo regular, haveria um total de cerca de 133 alunos no 9º ano, sendo que apenas 63,8 teriam sucesso no exame nacional, ou seja, cerca de 48% de sucesso.
 
Em linhas gerais, vivemos num país em que, na prática, mais de metade dos alunos que terminam o ensino básico não domina convenientemente a Matemática. Parece que sempre assim foi, embora hoje se consiga disfarçar muito bem.
publicado por pedro-na-escola às 08:18
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Brincar aos números

Hoje, na minha escola, os professores de Matemática entretiveram-se a dar mais umas pinceladas na candidatura ao Plano da Matemática II. Nestes momentos de trabalho, surgem algumas jornadas de reflexão profunda sobre o “estado da educação” e a moda dos “números”.
 
Há uma paranóia recente com as metas, na Educação. Falando sem conhecimento de causa, eu diria que é mais um capricho de meia dúzia de pseudo-especialistas, que acham que o problema da Educação em Portugal se resolve com a adopção de metas quantitativas em relação aos resultados dos alunos. No Plano da Matemática (no original e no II) exigem-nos o estabelecimento de metas para a evolução dos alunos. No modelo-faz-de-conta de avaliação do desempenho dos docentes, em versão original, também.
 
Ora, na minha opinião, que não passa disso mesmo, estabelecer metas para os resultados dos alunos é um profundo disparate e carece de lógica. Fica bem, para “inglês ver”, mas é uma palermice. Aceitar pacificamente metas destas é aceitar que podemos facilmente controlar os resultados das aprendizagens dos nossos alunos, como se o processo ensino-aprendizagem dependesse única e exclusivamente de nós, professores. Há muita gente que acha que sim, não lhes cabendo na cabecinha a existência de um jovem que não quer aprender absolutamente nada. A realidade é que os resultados escolares dependem de vários factores, sendo que o desempenho do professor é um deles, com um peso que é directamente proporcional à autoridade e expectativas dos pais.
 
Assim, numa escola como a minha, onde há cada vez menos pais a terem uma autoridade real sobre os filhos e onde as expectativas de futuro desses pais não vão além de um 9º ano às-três-pancadas, embora o 4º ano chegasse, não há qualquer lógica no estabelecimento de metas para resultados escolares. Em cada ano de escolaridade, os resultados dependem, basicamente, do número de pais que exigem aos seus filhos resultados positivos. E isso varia de ano para ano.
 
Mas, ainda temos uma agravante. Na nossa escola, num meio rural, o número de turmas por ano de escolaridade varia entre um e três. Percentualmente, um aluno dos nossos alunos representa um valor substancialmente maior que outro aluno numa escola de cidade, onde pode haver dez turmas por ano. Este facto faz com que as previsões estatísticas tenham ainda menos lógica. Mas, presumo eu, o que interessa é mesmo os números, não a lógica.
 
Por falar em números, o Plano da Matemática é um voraz consumidor de euros, na ordem dos milhões. Comprámos muito material para a Matemática, é certo, mas, sinceramente, esse acréscimo de material não se traduz directamente em sucesso. Dá jeito, sim. Mas, convém não esquecer que a Matemática exige atenção nas aulas, trabalho nas aulas e trabalho em casa. Por mais materiais que se adquiram, por maior que seja o circo que montemos para motivar os miúdos, sem atenção e sem trabalho não há aprendizagens.
 
No final, claro, fica bem aparecer na comunicação social para dizer que se investiram X milhões com a Matemática. Lá está: à boa maneira de Sócrates, o importante é mostrar que se fez qualquer coisa e chapar números e euros aos milhões, mesmo que não se tenha feito nada de consequente, que os números sejam apenas para encher o olho ao povo distraído e que os euros não sejam mais do que um esbanjamento irresponsável dos dinheiros públicos.
publicado por pedro-na-escola às 23:05
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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Cavaco e a Matemática

(…) Já em Lisboa, no ISEG, Cavaco Silva alertou que, para o País ser competitivo, é fundamental a Matemática: "É imprescindível aumentar o número de pessoas com competências para Matemática. Espero que os jovens percebam e invistam na Matemática porque é compensador."(…) Emotivo foi o regresso ao ISEG, onde encontrou ex-colegas. "Aprendi aqui que a Matemática não é fácil e divertida. Exige sim disciplina e muito trabalho", disse. (…)
in www.correiodamanha.pt (16 Abril 2009)
 
Coimbra: Cavaco quer evolução no ensino da Matemática
Escolas estão pouco exigentes
O Presidente da República considera que há "uma grande iliteracia matemática em Portugal" e defende "uma evolução no (seu) ensino". "As escolas devem ser exigentes e impor estudo, trabalho e rigor e o ensino deve ser mais centrado no interesse dos alunos", afirmou ontem Cavaco Silva, durante o 5º Roteiro para a Ciência, em Coimbra.
O Chefe de Estado, que acompanha o programa de Matemática do Ensino Básico, porque dá "explicações aos netos aos fins-de-semana", destacou que há "um grau de exigência menor" em relação ao seu tempo de estudante e "uma forma diferente de abordar os problemas".
Cavaco Silva lamentou que o desempenho dos alunos portugueses na Matemática esteja "muito abaixo da média dos jovens" dos restantes países da OCDE e que "um quinto dos portugueses com menos de 15 anos não seja capaz de interpretar um gráfico". "Nunca aderi à ideia de que a Matemática é lúdica, divertida e fácil", referiu, frisando que a disciplina "exige muito trabalho" e, "apesar do cidadão nem sempre se aperceber, está por trás de múltiplos aspectos do seu dia-a-dia".
in www.correiodamanha.pt (17 Abril 2009)
 
É perigoso, cada vez que alguém, do alto do seu pedestal, lança umas bojardas sobre o ensino, em especial sobre a Matemática. Mesmo no caso do Presidente da República.
 
Nas declarações captadas pelos jornalistas do Correio da Manhã, o PR até diz umas coisas acertadas, como a necessidade de exigência e rigor, mas, no mesmo discurso, tropeça nos próprios pés e sugere que “o ensino deve ser mais centrado no interesse dos alunos”.
 
Ora, qualquer pessoa que viva a menos de 10 km do planeta Terra sabe que o interesse dos alunos não converge com o rigor, a disciplina, a exigência e o trabalho. É natural que assim o seja. Pelo que, centrar o ensino no interesse dos alunos, é (foi, aliás) o primeiro passo para se enveredar por "uma forma diferente de abordar os problemas" e chegarmos rapidamente a um "um grau de exigência menor", contribuindo, então, para a “grande iliteracia matemática em Portugal". Em Portugal e em qualquer país que tome o mesmo caminho, digo eu.
 
Quanto Cavaco Silva espera “que os jovens percebam e invistam na Matemática porque é compensador”, está a alinhar-se na praia, virado para o nevoeiro que vem do mar, à espera que surja alguém de espada à cintura… Os jovens nunca irão investir na Matemática por ser compensador! Poderão investir, no caso de esse investimento ser condição necessária para atingir um qualquer objectivo, porque é assim que o mundo funciona. Investem para acabar um nível de ensino, para fazerem um exame, para fazerem um trabalho. Quando a conclusão do nível de ensino está francamente acessível, quando o exame é evidentemente facilitado, quando o trabalho se consegue fazer sem trabalho, é humanamente natural que não se invista na Matemática, porque, de facto, não compensa.
 
A Matemática, tal como tudo o resto que possa ser ensinado e aprendido, sem que tenha efeitos práticos imediatos, e exija rigor e esforço, não pode centrar-se no interesse dos alunos, nem pode depender da eventual compreensão, por parte dos jovens, de que compensa aprender.
 
As crianças e jovens necessitam crescer balizados: o que podem ou não podem fazer e o que devem aprender e saber. Os problemas, que ainda se procura disfarçar, relacionados com a indisciplina das crianças e jovens de hoje, acentuadamente generalizados em comparação com décadas atrás, derivam, na sua essência, da falta de balizas.
 
Na escola, que o PR diz ser pouco exigente, impera a falta de balizas, deitadas fora por obsessões com estatísticas e “sucesso”, não sendo claro que o conhecimento e o esforço sejam condições para a qualificação. Aliás, torna-se cada vez mais claro que a qualificação depende mais da capacidade para respirar do que qualquer outra condição.
publicado por pedro-na-escola às 13:52
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