Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

O problema das evidências

ESCOLAS VAZIAS EVIDENCIAM NÚMEROS

 
Nas escolas que o CM ontem visitou na zona de Lisboa a adesão era maciça. Na EB 2,3 Marquesa de Alorna, só dois docentes em 30 compareceram de manhã, o que significa uma adesão de 93 por cento. Na Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, os níveis foram idênticos: em 52 professores só quatro deram aulas. 'É uma adesão semelhante à da última greve', disse ao CM a presidente do conselho executivo, Isabel Legué.
 
Mesmo, ao lado, na Fonseca Benevides, os corredores da escola vazios indiciavam uma grande adesão. A líder do conselho executivo recusou revelar números mas uma funcionária confidenciou que a adesão andava na ordem dos 90 por cento. Já a EB 2,3 de São Julião, em Oeiras, decidiu encerrar. 'Em 36 docentes 29 fizeram greve e decidimos que não havia condições para manter a escola aberta', disse Maria Teresa Soares, presidente do conselho executivo.
 
in www.correiomanha.pt, 19 Janeiro 2009
 
Não percebi muito bem a presença do “ontem” no início do texto, mas, deve ser mais uma modernice jornalística à portuguesa.
 
O certo é que ainda há alguma comunicação social a dar um arzinho da sua graça, procurando, de forma muito discreta e sem ondas, confrontar as evidências físicas com as clarividências políticas.
 
A bem dizer, e digo-o, depois daquela farsa com o Estatuto do Aluno (leia-se o despacho dominical depois dos ovos), não tenho, pessoalmente, qualquer razão para acreditar no que quer que seja que venha assinado (ou não) pelo punho de qualquer um dos elementos do fantástico trio ministerial. Para todos os efeitos, não reconheço uma pinga de honestidade naquelas mentes.
 
Por estas e por outras, estou também em greve, como protesto. 
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publicado por pedro-na-escola às 14:07
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Domingo, 18 de Janeiro de 2009

Maldita matemática

 

No site da RTP:
 
Educação: Adesão à última greve de professores foi de 66,7% - números definitivos do Governo
 
Lisboa, 17 Jan (Lusa) - A adesão à greve de professores de 03 de Dezembro passado foi de 66,7 por cento, mais quase seis pontos percentuais do que o inicialmente divulgado, segundo os dados definitivos do Ministério da Educação.
 
No dia do protesto, num balanço provisório, o Governo anunciou que a adesão dos professores à paralisação tinha sido de 61 por cento, provocando o encerramento de cerca de 30 por cento das escolas.
 
No entanto, aqueles eram números referentes às faltas registadas às 11:00 e que ainda não incluíam os professores que nesse dia não tinham aulas nos seus horários, mas mais tarde declararam ter estado em greve, solicitando o respectivo desconto nos seus salários, explicou à Lusa fonte do Ministério da Educação.
 
Também os mais de 350 dirigentes sindicais só mais tarde declararam a sua adesão à greve, não entrando na contabilidade inicial de professores em falta, feita pelos presidentes dos conselhos executivos no dia da paralisação.
 
Por outro lado, e segundo a mesma fonte, há ainda professores que faltaram nesse dia, mas não estiveram em greve. Como apresentaram atestados médicos para justificar a ausência, acabando por sair dos números da adesão.
 
Assim, de acordo com os números definitivos do Ministério da Educação, no dia 03 de Dezembro, 66,7 por cento dos professores fizeram greve. A maior adesão registou-se na região Norte (71,2 por cento), seguida do Centro (70,6 por cento), do Algarve (64,2 por cento), do Alentejo (62,6 por cento) e de Lisboa e Vale do Tejo (60,3 por cento).
 
Os novos números revelam algumas alterações significativas. No Norte e no Centro, por exemplo, os dados provisórios indicavam uma adesão maior, de 90,4 e 72,1 por cento, respectivamente, enquanto nas restantes regiões do país os primeiros números eram inferiores, oscilando entre os 45,6 por cento do Algarve e os 44,8 por cento do Alentejo.
 
Os números definitivos do Ministério mantêm-se, no entanto, muito diferentes dos dos sindicatos, que anunciaram uma adesão à greve de 03 de Dezembro, convocada para protestar contra o modelo de avaliação de desempenho, de 94 por cento, considerando-a "a maior" paralisação de docentes em Portugal.
 
"Os números da greve, registados oficialmente às 11:00 pelo Ministério da Educação (ME), confirmam que a adesão se estabeleceu em 61 por cento, com 30 por cento de escolas encerradas. Reconhecemos que revelam uma adesão significativa, mas os objectivos dos sindicatos estão muito longe de terem sido atingidos", afirmou no próprio dia o secretário de Estado Valter Lemos.
 
Os professores voltam a fazer greve na próxima segunda-feira contra o modelo de avaliação aprovado pelo Governo e o Estatuto da Carreira Docente.
 
MP
Lusa/Fim
© 2009 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2009-01-17 06:10:01
 
Uma adesão de 66,7% significa que, numa escola com 100 professores, e pecando por defeito, estariam a trabalhar 34 professores. Numa escola com 50 professores, ou seja, do tamanho da minha própria escola, estariam a trabalhar 17 professores. Como diria o pivot de um jornal televisivo à hora do almoço do dia 3 de Dezembro, não é preciso ser-se professor de Matemática para perceber que os dados do Ministério da Educação não batem certo com a realidade que se viveu nas escolas.
 
É impressão minha ou a imprensa livre serviria, entre outras coisas, para dificultar a vida aos governantes que se atrevessem dar, como reais e verdadeiras, informações inventadas por conveniência e sem credibilidade?

 

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publicado por pedro-na-escola às 12:35
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

No rescaldo da greve…

Antes de me começar a influenciar pelas leituras de outros blogs, vou aproveitar para fazer, a título pessoal, um pequeno rescaldo deste dia de greve.
 
1. Foi a primeira vez que fiz greve. Não fiz greve por causa do modelo de avaliação de desempenho ou do próprio estatuto da carreira docente. O que me moveu, sinceramente, foi a minha opinião pessoal sobre o trio que lidera o Ministério da Educação: que não são pessoas sérias, honestas e com boas intenções. Opinião pessoal, repito. E a greve foi a minha forma de protestar contra a sua permanência naquelas funções e os seus disparates e palermices.
 
2. Na minha escola, e fora os professores que hoje não tinham serviço lectivo mas que ainda poderão vir a comunicar que fizeram greve, contabilizámos uma professora que não fez greve e ficou na escola, ou seja, cerca de 2%, o que corresponde a uma adesão à greve de cerca de 98%. Logo pela manhã, aos alunos foi dada ordem de regresso a suas casas, obviamente.
 
3. À hora do almoço, os canais de televisão fizeram uma passagem por várias escolas do país, praticamente todas com o mesmo panorama: esmagadora maioria de professores em greve, bem acima de 90%. Numa das escolas apresentadas, por exemplo, só não fizeram greve 3 dos 153 professores, o que dá uma adesão de cerca de 98%.
 
4. Logo de seguida, Valter Lemos discursava, com aquele ar de superioridade e desprezo, anunciando com foguetes que cerca de 90% das escolas estavam a funcionar e que a adesão à greve ficava bem aquém das expectativas dos sindicatos.
 
5. Juntando o ponto 3 com o 4, um jornalista mais atrevido comentou que não era preciso saber matemática para perceber que os números (ainda não apresentados) do Ministério da Educação não eram compatíveis com a realidade que se apalpava no terreno, à porta das escolas visitadas por vários jornalistas. Obviamente.
 
6. À noite, Valter Lemos, com a mesma postura de desprezo, apontava para uma adesão à greve de 61%, relembrando, novamente, que este número ficava bem abaixo das expectativas dos sindicatos. Eu bem que gostava de saber onde é que ele foi buscar esse valor. Depois da cena do Estatuto do Aluno, eu, pela parte que me toca, acho que o trio que tutela o ME era perfeitamente capaz de falsificar os números da adesão a seu belo interesse. É triste dizer isto, mas, depois de provas dadas, não sou capaz de acreditar na pretensa honestidade daquele trio.
 
7. Aos conselhos executivos, foi pedido o preenchimento da habitual aplicação sobre a adesão à greve. Os números foram calculados com base no número total de professores e não no número de professores que tinham serviço (lectivo ou não lectivo) no dia de greve. Esta é uma forma de baixar o valor da adesão, é certo, mas, na minha escola, foram vários os professores que, não tendo serviço no dia de greve, fizeram questão de telefonar para a secretaria e declarar que estavam em greve. 
 
8. Mesmo assim, tendo em conta os dados recolhidos pelos jornalistas (singelas amostras), os dados da minha escola e os dados de escolas com que contactámos durante o dia, não vislumbro uma explicação razoável que sustente o valor de 61% de adesão à greve. Matematicamente, seria necessário haver bastantes escolas em que só 3 ou 4 professores teriam aderido à greve, para “equilibrar” a média e produzir uma valor tão baixo como o dado por Valter Lemos. No caso de uma escola como a minha, seria necessário haver uma outra escola com apenas 24% de adesão á greve para que a média caísse para 61%.
 
9. Sobre o encerramento, ou não, das escolas, os conselhos executivos da região centro receberam um e-mail com um esclarecimento sobre o assunto, para efeitos estatísticos, a saber: se uma escola tiver ficado sem professores e, por consequência, sem alunos, mas mantenha os serviços públicos de atendimento, bar, cantina, reprografia, etc., é considerada como “em funcionamento”, não se devendo considerar “encerrada”. Do ponto de vista estatístico e propagandístico, este foi um esclarecimento oportuno, convenhamos. Como sempre.
 
10. E é escusada toda a discussão sobre a participação dos sindicatos em todo este movimento que culminou nesta monumental greve. O que moveu os professores, não foi o apelo dos sindicatos, mas, julgo, a dignidade de cada um. Os sindicatos foram levados por arrasto, na crista da onda.
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publicado por pedro-na-escola às 22:23
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Porque faço greve

Tal como muitos colegas, amanhã, 3 de Dezembro de 2008, vou fazer greve pela primeira vez. Nunca pensei fazê-lo. Sou mais de acatar, pacatamente, as novidades emanadas de cima, quase como um cordeirinho, e executar as ordens dadas. Enfim, cada um é como cada qual. Sou mais de encolher os ombros com a falta de visão e bom senso de quem, ao longo de décadas, tem passado pela tutela do Ministério da Educação.
 
No entanto, esta faceta de “cordeirinho” só é válida enquanto presumir que quem me tutela é uma pessoa minimamente honesta, uma pessoa de bem, séria, que apenas falha nas medidas que toma, tanto porque desconhece a realidade e as realidades, como porque é aconselhada por pessoas que desconhecem a realidade e as realidades. Assim tem sido ao longo de décadas e por isso a Educação em Portugal continua a não ser grande espingarda.
 
Ora, com a actual ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, e os seus dois secretários de estado, o panorama mudou drasticamente.
 
Pessoalmente, a gota que faltava para entornar o copo de água foi mesmo o espectáculo com a alteração do Estatuto do Aluno: uma lei que diz, claramente, que, independentemente da natureza das faltas, os alunos que faltam têm de ser sujeitos a uma prova com consequências penalizadoras, é espectacularmente alterada por um despacho dominical, disfarçado de esclarecimento, que diz que, afinal, depende da natureza das faltas a prova ter ou não consequências, e que esta até pode ser uma entrevista e não uma prova; não bastando isto, a ministra lava as suas mãos acusando as escolas de terem interpretado erradamente “o espírito” da lei. Quem faz uma jogada desta, às claras, com fanfarra e toque de sinos, não pode ser uma pessoa honesta, séria e de bem. Lamento, mas não pode!
 
A isto, junta-se o desgoverno de todo o ministério e das direcções regionais, de que me apercebo diariamente, no exercício de funções no conselho executivo da minha escola. Esta é uma apreciação algo subjectiva, eu sei, mas, no nosso gabinete, quase não passa um dia em que não olhemos uns para os outros, estupefactos com mais um desnorte vindo de cima na hierarquia do sistema.
 
A isto, juntam-se as palermices associadas ao Estatuto da Carreira Docente e ao modelo de Avaliação do Desempenho dos Docentes. E digo palermices, porque, uma coisa é o leque de opções políticas, tais como a limitação da progressão na carreira, a alteração do modelo de avaliação do desempenho, ou a mudança nas regras para gestão dos tempos não lectivos. Pode não concordar-se, mas, “come-se”. Outra coisa, bem diferente, é quando se entra no espectro da patetice e da aberração, tal como foi a forma de promoção à categoria de professor titular, a existência de quotas na avaliação, ou a inclusão dos resultados escolares como parâmetro de avaliação.
 
A isto, junte-se a fantástica fórmula das Novas Oportunidades, destinadas a certificar, ou qualificar, ou seja lá o que for que o senhor primeiro-ministro tanto adora, que mais não é do que uma farsa nacional como não há memória. Após séculos de história da humanidade, em que o objectivo da Educação e do Ensino era proporcionar conhecimentos e sabedoria, chegámos a uma nova era, em que o saber e o conhecer são espezinhados e humilhados por essa necessidade alucinante de certificar ou qualificar toda a gente, a qualquer custo, com o objectivo único da estatística.
 
A isto, junte-se o desperdício gigantesco e – pasmo! – não contabilizado, concretizado na literal oferta (ou semi-oferta) de computadores portáteis, sem qualquer critério, sem qualquer contrapartida, a todos os alunos. Com a agravante moral de, a uma escala nacional, se estar a colocar, nas mãos das crianças e jovens deste país, acesso livre e sem restrições a esse mundo cheio de perigos que é a Internet.
 
Faço greve, porque quero protestar contra o facto de ser governado por pessoas que não me merecem respeito e às quais não reconheço valores básicos como honestidade, seriedade ou boas intenções.
 
Faço greve, porque desejo, como nunca antes, e assim o quero demonstrar, que a senhora ministra e os seus dois secretários de estado abandonem as suas funções.
publicado por pedro-na-escola às 21:16
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