Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Como tropeçar e cair 900 lugares no ranking nacional

Afinal, a escalada não foi de 700 lugares, mas 900. A senhora é que se tinha enganado. Eu bem que tinha a ideia que no ano passado a coisa tinha sido muito negra. Andei à procura de uns ficheiros com os rankings do ano passado e… zás! Um salto de 900 lugares.
 
Já que andava à procura dos rankings de 2008, aproveitei a onda e tropecei nos de 2007. Não me lembrava de nenhuma desgraça em 2007 e senti curiosidade sobre o percurso 2007-2009.
 
Ora, em 2007, estávamos sensivelmente na mesma posição que em 2009. Os exames de 2008 é que foram o descalabro, tropeçámos e caímos 900 lugares. Este ano, voltámos à “normalidade”.
 
Toca a fazer um apelo à memória e analisar que tipo de alunos tínhamos em 2007 e que tipo tínhamos em 2008, que pudesse estar relacionado com tamanho solavanco.
 
Assim sendo, em 2007 tínhamos quase uma dezena de alunos com perspectivas de prosseguirem estudos por aí fora até uma faculdade de medicina ou uma engenharia, ou algo apetecível. E tinham notas a condizer. Depois sobravam uns quantos mais apáticos e outros virados mais para as gajas e os gajos e as motas e uns biscates numa qualquer gelataria na Alemanha. Mas havia um corpo de alunos a sério.
 
Em 2008, haveria qualquer coisa como uma meia dúzia de alunos com algum esbatido interesse em prosseguirem estudos no secundário e no ensino superior, mas, infelizmente, eram o produto acabado de um 3º ciclo altamente perturbado por colegas malucos. Ou seja, não havia um único aluno que pudéssemos considerar “bom”. À escolha, havia “mediano”, “fraco” e “nulo”. O resultado, pois claro, foi uma queda de 900 lugares.
 
Em 2009, voltámos a ter um corpo de alunos com perspectivas de prosseguimento de estudos, blá, blá, blá, e o resto já se sabe.
 
Ou seja, na prática, não trepámos 900 lugares no ranking. Na prática, tivemos foi a prova mais que evidente de que são os próprios alunos e os respectivos pais que condicionam o sucesso, e não outros factores como os professores, os apoios, a escola, o dinheiro, e tal, e tal, e tal...
publicado por pedro-na-escola às 22:04
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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Como trepar 700 lugares no ranking nacional

Hoje, recebemos um telefonema de uma jornalista do jornal Público, que desejava saber quais foram os factores que nos fizeram subir mais de 700 lugares no ranking nacional, segundo as estatísticas daquele órgão de comunicação social. Nós ainda não sabíamos do nosso lugar no ranking, mas a senhora jornalista fez o favor de informar. Um salto fabuloso!
 
A simpatia da senhora jornalista foi tanta que até sugeriu respostas: mudança de práticas?, mudança de professores?... Com o devido respeito, tenho a dizer que é preciso muita patetice junta e concentrada para sequer se ousar pensar que se trepam 700 lugares num ranking às custas de mudança de práticas ou de professores. É preciso viver mesmo noutro planeta para se adiantar hipóteses destas. Francamente!
 
Ainda assim, foi necessário dar resposta à senhora jornalista, não sei bem para quê, pelo que se gerou ali logo uma saudável discussão sobre os tais factores que fizeram a diferença. Eu tentei forçar a barra, insistindo que o único factor em causa era a mudança dos pais dos alunos. Alunos diferentes, porque pais diferentes, e o resto são estórias da Carochinha, disse eu. Não colou. Assim sendo, elencámos três factores para justificar o salto:
 
1. Em 2008, não tínhamos uma turma de CEF no 9º ano, pelo que a exame foram alunos interessados, alunos assim-assim e alunos que se estavam a borrifar completamente para a escola (estes com a conivência dos pais, obviamente). Em 2009, mais de um terço dos alunos do 9º ano estavam num CEF, pelo que, automaticamente, acabaram os níveis 1, e os níveis 2 ficaram em minoria.
 
2. Os alunos que foram a exame, em 2008, tiveram um 3º ciclo para esquecer, sempre com malucos na turma, a provocarem diariamente perturbações e interrupções das aulas para tratar da indisciplina. Os alunos que saíram do 2º ciclo com quatros e cincos, terminaram o 3º ciclo incapazes de passar acima da fasquia do 3. Tiveram azar, coitados, aqueles que sonhavam voar mais alto, porque, às custas de três ou quatro “órfãos de pais vivos”, ficaram com as “pernas cortadas” para o futuro.
 
3. Calhou, em 2009, grande parte dos alunos vir desde o 7º ano sem malucos nas turmas e, além disso, grande parte dos alunos ter pais com expectativas, que nunca se demitiram do seu papel de pais, nem das suas exigências para com os deveres e obrigações dos filhos (entenda-se: estudar, ter bons resultados e ter bom comportamento). Calhou, simplesmente. Tiveram sorte, estes alunos. Têm pernas para andar, uns querem seguir para medicina, outros para engenharias, e por aí fora.
 
As práticas lectivas, os apoios dados pela escola, a qualidade dos professores e mais uma mão-cheia de balelas que enchem páginas de jornais, revistas e blogues, são de uma irrelevância brutal neste assunto. Lamento como tanto se insiste em factores que, na minha humilde opinião, não passam de poeira, de tão insignificantes que são.
 
E falo com conhecimento de causa. Fui professor destes alunos que subiram 700 lugares no ranking, durante todo o 3º ciclo, e preparei-os para o exame nacional. Tal como todos os meus colegas de Matemática que também prepararam os seus alunos para o exame nacional. Ao contrário do que muitos patetas pensam, não se faz pão sem farinha! E a minha escola teve muita sorte, porque, em 2009, teve um saco cheio de farinha, quando habitualmente o saco traz bem mais areia do que farinha...
publicado por pedro-na-escola às 19:33
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

O jogo dos critérios de correcção

Este ano, fui corrector dos exames nacionais de Matemática do 9º ano. Não querendo inventar muito, eu diria que é possível fazer um estudo prévio de impacte percentual de alguns dos critérios de classificação. Isto é, estatisticamente, consegue-se prever, com alguma óbvia margem de erro, o efeito benevolente de alguns dos critérios. Uns pontinhos aqui, uns pontinhos ali, alargados à escala nacional, traduzidos em percentagem, conseguem fazer subir a taxa de sucesso. Não estou a insinuar que alguém fez este estudo estatístico, ou que há alguma espécie de manipulação algures, mas, considerando a honestidade que eu, a título pessoal, não reconheço na equipa do Ministério da Educação, não consigo evitar pensar como isto é possível.
 
É que, depois de corrigir e classificar os exames, fiquei com a nítida sensação que as provas dos exames nacionais são umas insignificâncias. Não interessa se são fáceis ou difíceis, bem ou mal concebidas. O que faz a diferença, são os critérios de classificação!
 
Paralelamente, parece que, nas reuniões do GAVE com os supervisores, procurou-se não dar espaço para que fossem colocadas muitas dúvidas ou para que se fizessem ouvir vozes (que fora muitas) discordantes e escandalizadas. E o GAVE deu orientações aos supervisores para que, nas suas reuniões com os professores correctores, também não fosse dado espaço para discussão, sendo que as ordens superiores são para cumprir cegamente. Uma série de “complementos” aos critérios de classificação, muitos deles recebidos de boca aberta, foram transmitidos exclusivamente por via oral, não havendo registo escrito (excepto nos apontamentos dos correctores, claro).
 
Quanto à benevolência dos critérios de classificação e dos seus “complementos” orais, houve, de facto, uma tendência crónica para pontuar “raciocínios”, mesmo que as perguntas fossem respondidas incorrectamente. É qualquer coisa do género de pagar a um engenheiro civil por ter feito uma coisa com ligeiras parecenças com uma ponte, só porque tem um tabuleiro e uns pilares, mesmo que não aguente com uma bicicleta e caia à menor rabanada de vento. Chama-se a isto premiar coisas mal feitas, ainda que parecidas. Na Matemática não deveria ser assim, por ser uma disciplina mais objectiva, mas, realmente, a objectividade era apenas para os critérios das perguntas de escolha múltipla.
publicado por pedro-na-escola às 08:46
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

A Matemática, os exames e outras coisas

Já passou o “stress” da preparação dos meus alunos para o exame nacional do 9º ano. Entre os brilhantes comentários da Sociedade Portuguesa de Matemática e da Associação de Professores de Matemática, os textos e comentários nos blogs, e as perguntas dos meus colegas sobre o grau de dificuldade do exame, apetece-me divagar um bocadinho:
 
1. Cada vez mais, acho que seria extraordinariamente divertido haver exames nacionais às demais disciplinas do 3º ciclo. Não desejo mal a ninguém, mas há dias em que cansa ver a Língua Portuguesa e a Matemática a serem as únicas disciplinas a levar com as luzes da ribalta.
 
2. Não é só uma questão de atenções para estas duas disciplinas. Há, na realidade, um acréscimo de trabalho para quem as lecciona: pela preparação para os exames nacionais, que abrangem três anos de escolaridade, e pela posterior correcção de algumas dezenas de exames, a quem calhar essa tarefa. Um acréscimo de trabalho que, por ausência de compensação monetária ou outra, a bem dizer, espelha alguma injustiça.
 
3. Aliás, era bom que, de uma vez por todas, se esclarecesse, de forma objectiva, que não há um “problema” chamado Matemática. Esta disciplina serve, tão só e apenas, de bode expiatório para um mal mais geral.
 
4. Tenho alguma esperança de que, neste ano lectivo, a minha pequena escola não figure, novamente, nos últimos 50 lugares do ranking nacional. A dezena de alunos que este ano frequentou um CEF, o primeiro a funcionar na nossa escola, representa, na prática e sem rodeios, menos dez negativas no exame nacional de Matemática do 9º ano.
 
5. Sobre o grau de dificuldade do exame nacional de Matemática do 9º ano, deste ano de 2009, há várias perspectivas. De um modo geral, e na minha perspectiva de professor de Matemática, acho que o exame era muito fácil. Na perspectiva dos conteúdos, apelava, de facto, a um domínio muito básico da matéria, de qualquer um dos anos do 3º ciclo. A interpretação continua a ser um obstáculo omnipresente, se bem que o termo “interpretação” pode, contrariando os “especialistas” em educação, ser facilmente confundido com falta de brio, falta de persistência, preguiça mental, ou desleixo. Os meus alunos “queixaram-se” que foi muito fácil, mas já descobriram algumas asneiras patéticas e evitáveis.
 
6. Ora, esta hipotética “facilidade”, confrontada com os erros cometidos pelos alunos neste exame e com os resultados que serão públicos daqui a umas poucas semanas, leva-me à minha já antiga convicção de que temos um problema sério com os programas das nossas disciplinas. Como é que os alunos, durante o ano, resolvem problemas com complexidade e dificuldade muito superior aos do exame, nas fichas de avaliação ou de trabalho, e, depois, espalham-se ao comprido no exame?
 
7. Desta falha, que se evidencia num exame perante uma questão cuja dificuldade é diminuta, faço uma leitura simples: há uma fraqueza na aplicação do conhecimento a situações diversas.
 
8. Esta fragilidade da aplicação do conhecimento é um sintoma que resulta – na minha humilde opinião – do exagero de conteúdos que marca a generalidade das disciplinas do sistema de ensino em Portugal. Começando pela Matemática. Falo por mim, correndo o risco de contra mim falar: a preocupação com o cumprimento do programa está sempre acima da preocupação com a assimilação e o domínio dos conteúdos por parte dos alunos.
 
9. Aliás, isto entra em sintonia com a ideia que vigora no país: a quantidade é sempre melhor, mais importante e mais vistoso, do que a qualidade.
 
10. Porque, falando pela parte que me toca, passei o ano lectivo em contra-relógio. Programa do 9º ano para cumprir, preparação dos alunos para dois testes intermédios e um exame nacional, revisão dos conteúdos de três anos de escolaridade, fichas de avaliação, fichas de trabalho e fichas de preparação para o exame. Esta sensação de ter passado o ano a correr, pode significar que sou mau professor. Quiçá. Gostava de saber se sim, ou se não. Mas, na prática, no trabalho desenvolvido com os meus alunos, significa que não houve a serenidade que desejaria para explorar a aplicação dos conhecimentos que lhes transmiti ao longo do ano e, já agora, ao longo dos três anos em que fui professor deles.
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publicado por pedro-na-escola às 23:15
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