Segunda-feira, 15 de Março de 2010

A inversão das coisas

Vivemos num país onde há demasiadas coisas invertidas. Enoja-me este facto, mas é assim que andamos.
 
No caso do professor de música que se suicidou, é mais importante a fragilidade psicológica do professor do que a má formação pessoal dos alunos que tratam professores sem qualquer respeito.
 
No mesmo caso, é mais importante acautelar que aqueles “índios” não se sintam de forma alguma responsabilizados pelo que aconteceu (coitadinhos), do que condenar as suas atitudes ou evitar que se repitam.
 
A indisciplina na sala de aula, que é incompatível com qualquer sistema de ensino bem sucedido, é aceite no nosso país com a maior das benevolências, e até com algum carinho, perseguindo-se o professor que não é capaz de “lidar” com ela.
 
Toda a formação dada aos professores, no âmbito da indisciplina, aponta no sentido de conviver com ela, e não de a erradicar das nossas escolas.
 
Para o Ministério da Educação, é mais importante o aluno que não quer aprender, que não quer aceitar qualquer regra de boa convivência, que não se presta a atitudes de respeito seja por quem for, do que o aluno cumpridor, estudioso e dedicado.
 
Sai muito mais caro ao Estado um jovem que não quer fazer nada, nem aceita regra alguma, do que um potencial cientista. Sai mais caro, porque o Estado promove o direito a não querer fazer nada, a não aceitar regra alguma, nem a cumprir qualquer dever.
 
Nas turmas, todas as atenções e energias são canalizadas para os alunos que não querem saber da escola para nada, ignorando-se aqueles que são bons alunos e pretendem prosseguir estudos, contribuindo para a força intelectual e técnica da nação.
 
Numa sala de aula, o direito a aprendizagens de qualidade de que deviam gozar os alunos, é totalmente abafado pelo direito que qualquer um deles tem de inviabilizar todo o trabalho do professor. 
 
Aliás, nesta sociedade patética, tem mais direitos e paparicos o bandido do que a vítima.
 
Em casa, os pais já não mandam nos filhos. Habituaram-nos, desde pequeninos, a não serem confrontados com o “não”. 
 
Sobre a Educação (leia-se sistema de ensino), ausculta-se sempre quem não está no terreno: sociólogos, psicopedagogos, psicólogos, estudiosos, teóricos, gabinetes, etc.
 
Enfim, isto tudo dá-me vómitos, sinceramente.
publicado por pedro-na-escola às 12:28
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

A escuridão ao fundo do túnel

Vou especular um bocadinho. Já não sou o primeiro, nem serei o último.
 
A comunicação social não andará ligeiramente controlada pelo governo? Acho tudo muito estranho. As notícias que passam e que nos dizem respeito, tão esquisitas. Os prováveis 120 000 professores pelas ruas de Lisboa, um acontecimento tratado da mesma forma que uma concentração de 100 motards para beberem uns copos e assistirem a um espectáculo de striptease. A conferência de imprensa às 17h00. Os helicópteros. Enfim.
 
Mas, não é só pela manifestação. Pelas manifestações. Estas, são aquilo a que eu chamo “acontecimentos pontuais”, com o devido respeito, claro, dado o número soberbo de profissionais presentes, inimaginável até há poucos meses atrás.
 
Preocupa-me o silêncio da comunicação social para com os “acontecimentos estruturais”. Falo da farsa das Novas Oportunidades. Falo das ordens camufladas para ignorar as faltas dos alunos, incluindo nos CEF’s. Falo da farsa da ascensão dos titulares a avaliadores, esse tal pretenso corpo de elite. Falo do bem engendrado “ataque” aos professores, que tantos aplausos tem merecido por parte da facção recalcada da sociedade. Falo do silêncio da tutela, como que a bater palmas, perante os casos de violência para com os seus funcionários. Falo do fim da democracia nas escolas, com o fim das eleições. Falo dos programas “e-escola” e “e-escolinha”.
 
Aos poucos, começo a vislumbrar, ao fundo do túnel, uma certa escuridão. Especulo mais um bocadinho.
 
Comunicação social controlada. Povo “convenientemente” informado. A censura paira no ar e transpira-se algum medo de represálias. Mesmo debaixo dos nossos olhos (de professores), cresce uma sociedade cada vez mais bruta, mais inculta e com menos espírito crítico, mercê de um estatal “laissez faire”. Ao povo, atiram-se amendoins, sob a forma de computadores portáteis ao preço da chuva. O povo, aplaude, rejubilando em histeria colectiva. Faz-se propaganda sobre o nível cultural e tecnológico do povo, que já está a morder os calcanhares aos nórdicos.
 
Em tempos, li uma teoria de alguém, sobre a importância de se governar um povo bruto e inculto. A Educação, a verdadeira Educação, claro, seria a inimiga número um de quem quisesse levar por diante esta teoria.
 
Com jeitinho, vamos lá…
publicado por pedro-na-escola às 00:03
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Sinais dos tempos

É minha convicção que o bicho Homem sempre foi como hoje é, assim como as criancinhas e os jovens de hoje são tal e qual como há 100 ou 1000 anos atrás. Mudam pormenores técnicos, mais telemóvel menos pião, mas a essência continua na mesma.
 
Por tal, quando se fala naquele lugar comum dos “sinais dos tempos”, convém isolar o que é, realmente, um sinal dos tempos, e o que é apenas um reflexo desses sinais. Teorias da treta, é aquilo a que me proponho nas linhas seguintes.
 
A irreverência, a rebeldia, a insolência, a indisciplina, a insubordinação e outras coisas do mesmo calibre, fazem parte do repertório humano, logo desde tenra idade. Desde sempre.
 
Comentar que os jovens de hoje isto, ou que os jovens de hoje aquilo, por comparação com o “nosso tempo”, é um dos exercícios mais estéreis que se pode fazer. Ao ler comentários escritos há 100 ou 1000 anos atrás, sobre os problemas dos jovens, sem que se saiba a data em que foram escritos, fica-se com a sensação de estar a ler um texto actualíssimo, escrito há menos de uma semana. O maior erro – ainda por cima, recorrente e irritantemente repetido – que se comete sistematicamente em educação, é tentar adaptar tudo aos “sinais dos tempos”, aos “dias de hoje”, aos “jovens de hoje”.
 
A consequência deste erro é um sistema de feedback (de realimentação, como nos sistemas de controlo), em que uma medida errada provoca alterações sociais, as quais são interpretadas como “sinais dos tempos” em vez de serem vistas como consequências daquela medida errada. A resposta será mais uma medida, geralmente errada, que procura combater “sinais dos tempos” em vez de procurar corrigir a anterior medida. O passo seguinte, já se sabe qual é. Assim como os outros que lhe seguem, e por aí fora.
 
Quando hoje falamos em indisciplina, falta de educação, insucesso, abandono, ou outras crises sociais associadas à escola, talvez se possa pensar no seguinte:
 
1. Hoje, são cada vez mais os jovens, os pais, as famílias e cada vez mais a sociedade, que encaram a indisciplina como uma forma natural de estar no mundo, sendo uma atitude praticamente irrepreensível e incriticável.
 
2. Hoje, são cada vez mais os jovens, os pais, as famílias e cada vez mais a sociedade, que encaram a falta de educação como uma verdadeira forma de educação, onde o respeito é um conceito antiquado, desprezível e perfeitamente dispensável.
 
3. Hoje, são cada vez mais os jovens, os pais, as famílias e cada vez mais a sociedade, que encaram o insucesso e o abandono escolares como algo tão aceitável como comer um iogurte ao pequeno-almoço. Falhar e abandonar são dois conceitos que se equilibram, em termos de prestígio social, com os conceitos de conseguir e compromisso.
 
4. Hoje, são cada vez mais os jovens, os pais, as famílias e cada vez mais a sociedade, que não sentem vergonha alguma num desempenho outrora reprovável (ou menos louvável). Falhar, ser-se mal educado, faltar às obrigações, perturbar a ordem, agredir, insultar ou enganar, são atitudes tão aceitáveis que deixaram de trazer vergonha a quem as pratica ou, sequer, aos seus familiares e amigos. Em suma, a verdadeira crise que Portugal enfrenta é a falta de vergonha!
 
A generalização do cidadão desavergonhado é que é o real sinal dos tempos!
publicado por pedro-na-escola às 19:57
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