Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O desafio-faz-de-conta de João Alvarenga

A propósito do artigo de opinião de João Alvarenga) Presidente da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo), no jornal Público (17/10/2009), no caderno sobre os rankings de 2009, apeteceu-me especular sobre como seria se o país aceitasse o desafio que ele deixou:
 
"Se a supremacia do privado no ranking é fruto apenas da origem dos alunos, então deixem que todos optem, querendo, pelo privado. Depois avaliaremos o resultado".
 
Vamos lá. Num determinado concelho, existem três escolas: A, B e C. As duas primeiras são públicas e a última (C) é privada. Todos os alunos deste concelho têm direito a um cheque-ensino, que permite aos pais inscrevê-los na escola que quiserem, sendo que as “propinas” são iguais em qualquer das escolas, sem custos adicionais, nem letras minúsculas.
 
No ranking do último ano, as posições foram as seguintes:
- escola A: 900.
- escola B: 300.
- escola C: 100.
 
As escolas têm a seguinte capacidade (para acolher alunos):
- escola A: 300.
- escola B: 600.
- escola C: 100.
 
No concelho existem 1000 alunos. Considere-se que nenhuma das três escolas tem critérios para continuidade dos seus alunos, pelo que os 1000 alunos estão automaticamente em igualdade de circunstâncias no acesso a qualquer uma delas.
 
Presumo que a escola C seria a mais pretendida, por ter os melhores resultados no ano anterior, pelo que 900 alunos do concelho ficariam de fora. Com que critério? Não se sabe, pois João Alvarenga não disse.
 
Presumo, igualmente, que a escola B viria em segundo lugar na escolha dos outros 900 pais. Sorte que cabem lá 600 alunos. Resta saber com base em que critérios é que os outros 300 alunos seriam recambiados para a escola A.
 
Presumo, ainda, que, dos 1000 alunos do concelho, haja uns 50 cujos pais se estão bem nas tintas para essa coisa da escola e inscrevam os filhos na que ficar mais perto e dê para ir de carro. Se deixarem.
 
Critérios, pois. Talvez uns envelopes discretamente passados por baixo da mesa? Provas de selecção? Trocas de favores? Uns presuntos e uns queijos? Um borrego?
 
O desafio de João Alvarenga é, na prática, e salvo melhor explicação, transformar as escolas públicas em escolas privadas, no que toca à selecção da massa humana que se senta diariamente nas cadeiras das salas de aula. Todas, menos uma, por concelho: aquela que ficar com os malucos, arruaceiros, lunáticos, marginais, chanfrados, aspirantes a delinquentes, drogados, alcoólicos, etc., que não foram aceites nas outras.
 
Ou seja, o desafio de João Alvarenga é, na prática, uma patetice! Ou não. Se os malucos, arruaceiros, etc., ficarem concentrados todos na mesma escola, num gueto institucional, é certo que o desempenho dos alunos portugueses – como um todo – melhorará substancialmente. No exemplo que dei, em vez de 900 alunos sujeitos a conviver nas salas de aula com desestabilizadores, só haveria 300, incluindo os próprios. Visto doutro lado, em vez de termos apenas 100 alunos poupados ao convívio com quem não quer aprender, teríamos 700. Não está mal pensado. Tem muitas potencialidades, este desafio.
 
Aproveitei, também, esta suposta crença dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo: “Acreditamos ainda que todos os alunos são capazes de aprender.”
 
Aproveitei, porque também quero dizer, em nome dos Estabelecimentos de Ensino Público, que sabemos muito bem que todos os alunos são capazes de aprender! E sabemos, melhor que ninguém, que muitos deles não querem mesmo aprender e nisso têm o apoio dos respectivos pais!
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publicado por pedro-na-escola às 20:55
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