Sábado, 20 de Março de 2010

Que raio de “carreira”

Se há coisa que eu nunca compreendi, é a carreira docente em Portugal. Gosto sempre de compreender as coisas, até porque é a melhor forma de posteriormente as poder explicar a outros.
 
Percebo que não haja muita dignidade numa profissão em que se ganha o mesmo vencimento durante trinta ou quarenta anos, fazendo sempre a mesma coisa.
 
Mas já não consigo ver lógica alguma em haver dois profissionais que trabalham lado a lado, desempenhando as mesmas funções, sendo que um ganha o dobro do outro. Pode ser porreiro trabalhar, ano após ano, com a mira na cenoura da duplicação do vencimento num ano vindouro, lá bem para a frente. Mas não tem qualquer lógica que assim seja. Para mim, não tem.
 
Pior é, quando o profissional que ganha o dobro, é objectivamente um mau profissional, que nem sequer cumpre com os seus deveres.
 
A amplitude salarial da nossa actual carreira é uma machadada em qualquer pontinha de bom senso que queiramos demonstrar ao mundo. Uma amplitude escandalosa, na minha opinião.
 
Concordo com algum aumento salarial, no decorrer da nossa vida profissional, para compensar o facto de, na prática, não termos acesso a uma verdadeira carreira. No caso dos militares, por exemplo, a evolução salarial é acompanhada de uma evolução no nível de responsabilidades e de comando. Na nossa carreira, o mais que podemos é desempenhar cargos de direcção num órgão de gestão. Ou desempenharmos funções numa estrutura regional ou nacional. Dentro de uma escola, não vejo a lógica de termos uma “carreira” tão extensa, em que as mudanças estão associadas, só e a apenas, ao vencimento.
 
Na prática, eu votaria numa progressão salarial moderada, começando mais acima e terminando mais abaixo. Isto é, o salário de quem é contratado, ou começa a “carreira”, acima do actual, e o topo do bolo, abaixo do actual. Uma espécie de compressão em direcção ao centro, mais coisa, menos coisa. Toda a gente discorda disto, já sei, mas que se lixe. Continuo a achar ilógico ver um professor do quadro, com 30 anos de serviço, ganhar o dobro de um professor contratado, trabalhando um ao lado do outro, quiçá o mais jovem “produzindo” muito mais para o país. Eu teria alguma vergonha.
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publicado por pedro-na-escola às 11:19
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6 comentários:
De setora a 21 de Março de 2010 às 00:36
Tem alguma razão.
Mas a sua indignação contra os "velhos" não tem muito sentido - já foram novos, já andaram muitos anos como contratados à espera de efectivar, porque só então entravam na carreira. Os QZP que deram rápido acesso à carreira a muitos contratados foram uma invenção recente (e pelos vistos de duração curta). Antes, durante muitos anos não se saía da cepa torta.


De pedro-na-escola a 21 de Março de 2010 às 21:25
Não se trata de qualquer indignação contra os colegas mais "velhos". Trabalham lado a lado comigo e eu podia perfeitamente ser um deles, acaso houvesse nascido anos antes. A indignação é, só e apenas, contra o sistema desta "carreira".


De setora a 22 de Março de 2010 às 13:34
Quando comecei a trabalhar, vão lá 37 anos, não me incomodou que os mais velhos na profissão ganhassem mais do que eu. Pareceu-me normal e continua a parecer-me normal que o tempo de serviço vá conduzindo a aumentos salariais. Que o leque fosse mais estreito também não me pareceria mal mas que esse estreitamento não se fizesse apenas para os professores. O leque salarial é doentiamente alargado nesta nossa sociedade e não há razão para que o problema se ponha apenas para os professores. Indo ao seu exemplo, justificar-se-á a grande diferença de vencimento que separa o general do soldado? Já não partilho algumas outras suas opiniões - o estar enfiada num gabinete de uma direcção central ou regional da educação seria justificação para maior vencimento, seria um avanço na minha profissão? Não acho, o meu trabalho é com os alunos. Em directo, ao vivo, vamos avançando. Também não vejo só "maus" profissionais nos velhos. Vejo-os de todos os jeitos em todas as idades.


De pedro-na-escola a 22 de Março de 2010 às 19:26
Eu acho que se justifica bem a diferença de vencimento entre um general e um soldado. Têm formação diferente e, acima de tudo, têm funções com graus bem diferentes de responsabilidade (para o dia-a-dia, para o bem e para o mal)... bem diferentes... tomar uma decisão que pode implicar a morte de centenas ou milhares de homens (seus) é bem diferente da decisão de premir ou não um simples gatilho...

Talvez também não se justifique a diferença salarial entre professores e funcionários... ou justifica?

O exemplo que dei de trabalhar numa direcção regional, foi apenas no sentido de serem funções completamente diferentes. Trabalhar com crianças e jovens é uma coisa, e não trabalhar é outra completamente diferente. Até poderia justificar um decréscimo de salário o trabalho numa DRE, por exemplo.

Obviamente que não há só maus profissionais entre os mais velhos! Aliás, seja em que idade for, a maior parte dos professores são bons profissionais... pelo menos aqueles com quem tenho trabalhado ao longo dos anos. Mas chocou-me o primeiro ano (em que entrei para a carreira), por ter convivido com um péssimo profissional (ia ao ponto de querer que as grávidas ficassem fora da sala dos professores para ele poder fumar lá dentro) que ganhava o dobro de mim...


De setora a 24 de Março de 2010 às 19:43
Acho um bocado enviesada essa análise militar.Os do "premir simples do gatilho" é que morrem e matam e esse destino é-lhes traçado no gabinete. Não havia dinheiro que me pagasse o tal premir simples do gatilho. Mas isto são concepções de vida!

Com as tarefas que estão distribuídas aos professores e aos funcionários (suponho que se refere aos das escolas) naturalmente que entendo que se justificam diferenças salariais. Mas nunca se justificam enormes diferenças salariais e mais ainda nunca se justifica que uma parte das pessoas não tenha condições para viver com a indispensável dignidade.


De pedro-na-escola a 24 de Março de 2010 às 21:30
Resumidamente, foram as enormes diferenças salariais que estiveram na base deste meu post, para profissionais que trabalham lado a lado e executando as mesmas "tarefas".


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