Sábado, 20 de Março de 2010

Breve teoria do crime

Segundo o blog do Ramiro Marques, no debate parlamentar de hoje sobre a violência escolar, Ana Drago (BE) insurgiu-se contra medidas que conduzam à suspensão dos alunos violentos. Para a deputada do BE, a receita a aplicar deve ser "trabalhar com os alunos para promover a responsabilidade individual".
 
E eu a pensar que esta deputada ainda tinha alguma consciência do que se passa nas escolas. Pelos vistos, não tem. Ora bolas.
 
A suspensão dos alunos violentos não resolve o problema. Isto é um facto. É uma medida cujo único efeito prático é diminuir o grau de influência nefasta do factor indisciplina no papel da escola. Quanto menos alunos violentos e indisciplinados houver, melhor a escola consegue desempenhar o seu papel. Em nenhum país civilizado, com bom desempenho na Educação, é permitida, aceite e apaparicada a existência de indisciplina dentro e fora das salas de aula. É uma incompatibilidade óbvia, invisível aos olhos dos cérebros portugueses que têm carta branca para inventar, disparatar e aplicar, em matéria de Educação.
 
“Trabalhar com os alunos”, é sinónimo de dizer-lhes que ah e tal, é feio o que estão a fazer. Podeis continuar, claro, mas é feio, está bem?
 
O fenómeno dos alunos violentos é igual à existência dos bandidos. Não é fenómeno nenhum, mas, antes, um facto incontornável de qualquer sociedade. À custa deste facto, vou fazer aqui um exercício académico. Façamos de conta que 5% dos portugueses são bandidos. Isto é, dedicam-se ao crime. Não é verdade que 95% sejam pessoas honestas e incapazes de cometerem um crime. Eu diria, a título de exemplo e sem querer exagerar, que 80% dos portugueses são bem capazes de cometer um crime, e que 20% são, de facto, de uma honestidade intocável. Mas, daqueles 80%, só 5% se manifestam. Porquê? Porque os outros 75% têm noção de que, a serem apanhados, a vida vai-lhes correr mal, e não estão para isso. Quanto aos 5%, ou não resistem ao chamamento, ao charme e à aventura associados ao crime, ou acham que não têm nada a perder, ou pesam os factores e decidem que vale a pena arriscar.
 
Na prática, a existência de consequências para actos criminosos não elimina a sua existência, mas limita-a quantitativamente.
 
Na prática, não se evita que os tais 80% se manifestem, recorrendo a conversas e/ou actividades para promover a responsabilidade individual. Se assim fosse, tornava-se desnecessário haver polícia e tribunais, e os agentes da autoridade eram todos substituídos por psicólogos. Certo?
 
A violência escolar e a indisciplina seguem o mesmo caminho. Não havendo consequências pesadas, não há limitação de instintos e os 80% revelam-se facilmente em território escolar. Será um exagero falar em 80% do universo escolar? Se todos os alunos soubessem que não haveria qualquer consequência para os seus actos, quantos se manteriam com um comportamento civilizado e respeitador? Quantos? A verdade, é que muitos alunos sabem que há algumas consequências, ainda que poucas, e não estão para se sujeitar a sofrê-las, ou porque não estão para isso, ou porque em casa haveria o “caldo entornado”. E, por isso, não se esticam muito. Os outros, sabem que as consequências são mesmo poucas e inofensivas, pelo que, com as “costas aquecidas” pela conivência familiar, sentem-se com uma imensa liberdade de actuação e completamente embebidos pelo espírito da impunidade.
 
A responsabilidade promove-se através de regras. Não se consegue com falinhas mansas e discursos moralistas. E uma regra só é regra, quando tem consequências efectivas e nocivas para quem não as cumpre! Que é o que mais falta em Portugal!
publicado por pedro-na-escola às 19:10
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