Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Sócrates e os maus professores

Um dos motivos pelos quais eu acho que os professores devem ser avaliados, é muito fácil de explicar e, quem sabe?, de perceber:
 
Como em todas as profissões da nossa sociedade, há maus profissionais, profissionais médios, bons profissionais. Eventualmente, alguns excepcionalmente bons. Também como na esmagadora maioria das profissões, e deixando uma ressalva para algumas realidades que desconheço, a maior parte dos profissionais são médios. Contrariando algumas ideologias a roçar a parolice, é perfeitamente normal que a maior parte dos profissionais tenham um desempenho médio, porque a maior parte dos cidadãos tem capacidades médias.
 
Quando vou a um médico, não exijo que ele seja um bom médico e muito menos que seja excepcional. O que exijo é, simplesmente, que ele não seja um mau profissional. Se quiser um pedreiro para fazer uma casa, o meu maior receio é que me saia um mau profissional.
 
Nesta linha de ideias – obviamente discutível -, temos que ter um modelo de avaliação que contribua para eliminar os maus profissionais: ou porque não querem mudar de atitude, ou porque não são capazes mesmo de mudar. Dizer que é um modelo punitivo, não fica muito bem, mas, na prática, é assim que deve ser. A punição, claro, é o simples afastamento da pessoa em causa.
 
Desejar que o modelo de avaliação sirva para melhorar o desempenho dos professores médios, é um pouco utópico, em especial num país como Portugal, onde uma quantidade impressionante de alunos se acha no direito de não querer aprender e usa e abusa desse direito, com a conivência dos pais e do Estado, acrescendo a esse o direito de também influenciar negativamente as aprendizagens dos que querem usufruir do direito de aprender, com a conivência dos mesmos do costume.
 
Em primeiro e fundamental lugar, a avaliação deveria servir para identificar os maus profissionais, colocando-os entre a espada e a parede. Nós, professores, temo-nos cruzado com maus profissionais ao longo da nossa vida, nesta ou naquela escola. São uma minoria realmente minorca, mas, como diria alguém, “eles andem aí”.
 
Até à era Sócrates, não havia um mecanismo para, objectivamente, identificar e afastar os maus profissionais. Quase que parece mal pôr as coisas assim, mas eu até fiz parte de uma daquelas comissões para avaliar os relatórios de auto-avaliação para efeitos de progressão de escalão, e, realmente, os maus profissionais continuavam a ser maus profissionais, sem que qualquer beliscadela lhes atormentasse os maus hábitos.
 
Depois, veio Sócrates, o salvador da Pátria, o grande líder, blá blá blá. E criou um modelo-faz-de-conta para avaliar os professores que consegue alimentar situações ainda mais aberrantes do que deixar os maus profissionais progredirem da mesma forma que os bons profissionais. Conseguiu que alguns maus profissionais ficassem livres de uma avaliação ao seu desempenho como professores e que, ainda por cima, fossem promovidos a avaliadores dos outros.
 
E assim surgem situações quase a raspar no inacreditável, como a que a seguir descrevo, tal qual me relataram de fonte directa e segura, na qual apenas não são verídicos os nomes dos professores e os nomes das disciplinas de línguas:
 
No início deste ano lectivo, a turma X do 9º ano mudou de professor de Inglês. No ano passado teve o professor João (do antigo grupo de recrutamento de Português/Inglês), mas este ano, por força da rentabilização de recursos na distribuição de serviço, passou a ter o professor Manuel (também do antigo grupo de recrutamento de Português/Inglês).
 
Ora, numa das primeiras aulas, assim como que de revisão de conhecimentos anteriores, os alunos confessaram que o professor João passou o ano inteiro a passar-lhes filmes em Francês durante as aulas, pelo que o Inglês ficou para outras núpcias. Parece que, na biblioteca da escola, havia muitos mais filmes em Francês do que em Inglês, pelo que era mais simples e rápido arranjar um filme em Francês do que andar em busca de um em Inglês.
 
Quanto à questão das notas, e ainda segundo os alunos, boas notas para todos, bico calado e assunto resolvido. Satisfação total, sucesso global.
 
Da parte dos pais, a quem interessa mais a “qualificação” do que o “conhecimento”, nunca houve uma queixa. No entanto, do professor João parece que sempre houve grandes dúvidas sobre as suas capacidades para leccionar, mas o sistema sempre o deixou andar para a frente.
 
A parte que me revolta as entranhas, nesta situação, é que o professor João é mais velho do que o professor Manuel, e, por conseguinte, subiu a Professor Titular por via administrativa, sem que nunca alguém tenha avaliado se ele era capaz de dar aulas com um mínimo de qualidade. Ou dar aulas, sequer. Mas irá, eventualmente, avaliar a capacidade do professor Manuel para dar aulas.
 
A 27 de Setembro de 2009, o povo mostrou que quer que Sócrates continue a inventar disparates que permitam situações aberrantes como esta. Afinal, foi ele que, finalmente, após trinta anos, veio “meter os professores na ordem”. Que país de pobres de espírito é este nosso Portugal...
publicado por pedro-na-escola às 23:59
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