Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Caro Dr. João Freire

Caro Dr. João Freire
 
Li com atenção o seu texto intitulado “Educação: o destino de uma política”, publicado no jornal Público em 7 de Setembro de 2009.
 
Na minha qualidade de professor, e estando também ligado à gestão e administração da minha escola, gostaria de tecer alguns comentários a partir do seu texto.
 
1. As qualidades que reconhece em Maria de Lurdes Rodrigues, não são reconhecidas pela generalidade das pessoas, em especial pelos professores. Pessoalmente, vejo nela uma pessoa capaz de se manter fiel a uma linha de pensamento e actuação – uma qualidade invejável, tenho que confessar -, mas não mais que isso. Mas, a minha preocupação diária é o objecto da minha profissão e não quem está politicamente a dirigir o Ministério da Educação, portanto, adiante.
 
2. Como professor, isto é, como profissional que diariamente transmite conhecimentos e competências aos jovens que serão, um dia, o futuro da nossa nação, lamento que os conteúdos curriculares continuem na mesma. Não percebi o que entende por “confrarias” académicas, mas, infelizmente, as alterações curriculares são, geralmente, fruto da satisfação de caprichos de gente alheia ao dia-a-dia das escolas. Os conteúdos das disciplinas baseiam-se numa patética cultura de quantidade, que obriga os professores a manterem, ao longo do ano, uma corrida contra-relógio para a leccionação de todos os conteúdos. Afinal, é essa a base da mentalidade nacional: quanto mais, melhor.
 
3. Lamento as suas considerações sobre o suposto “combate político”. O que aconteceu, ao longo destes anos, transcendeu, em muito, a coligação de sindicatos, as minorias activas, os partidos de oposição e os meios de comunicação social. E não teve nada que ver com a sua ideia de “vitimização dos docentes”. É uma boa tentativa, a sua, de atirar as culpas para os sindicatos, as minorias, os partidos e a comunicação social, mas nunca estas frentes teriam sucesso sem o principal da questão. E, a bem dizer, o principal da questão foi mesmo a série de patetices atiradas às escolas e aos professores pelo reinado de Maria de Lurdes Rodrigues! Não há sindicato, minoria, partido ou comunicação social que consiga chegar aos calcanhares do sentimento na pele que atingiu escolas e professores. No seu caso, compreendo que não perceba o que nós, professores e escolas, sentimos na pele, já que vive num mundo alheio à realidade escolar, mas foi isto que fez a diferença nesse seu “combate político”.
 
4. Discordo completamente da sua ideia de que os resultados educativos derivam, em grande medida, da qualidade do professorado. Se, até hoje, não percebeu porque é que Portugal está tão na cauda nesta matéria, duvido que venha a perceber, até porque isso parece ser mais uma posição formatada do que propriamente um conhecimento de causa. No entanto, deixo-lhe aqui os comentários de uma aluna francesa, que veio parar, de pára-quedas, na nossa escola: lá em França, os professores não têm boas relações com os alunos como aqui; não percebo como é que os alunos portugueses não aprendem, quando os professores explicam tantas vezes a mesma coisa e há tantas aulas de apoio – só quem não quer é que não aprende.
 
5. A propósito de uma suposta excessiva complacência para com uma minoria de profissionais incompetentes e desajustados à função, tenho a dizer-lhe que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu o que, num mundo racional, seria impossível, ou, no mínimo, inadmissível: promover administrativamente vários desses profissionais incompetentes, dando-lhes o pomposo cognome de “professores titulares” e concedendo-lhes a sensível missão de avaliar os restantes profissionais. É a isto que se chama ter “inteligência global e aplicada”?
 
6. Os passos concretos e decisivos, dados por Maria de Lurdes Rodrigues, foram marcados por uma série de patetices e medidas precipitadas, atabalhoadas e mal feitas, cabendo-lhe um descrédito crescente, ao que acresce a forma descarada como as leis foram ignoradas e atropeladas em função de novos interesses. Talvez lhe pareça mal, da minha parte, colocar as coisas desta forma, por isso, cabe-me apresentar exemplos: patetice foi a promoção a titular de professores incompetentes; patetice foi a criação de quotas na avaliação, quando o fim deveria ser a existência de quotas na progressão (são coisas completamente opostas, mas quem vive noutro mundo confunde-as facilmente); medidas precipitadas, atabalhoadas e mal feitas, foi o pseudo-modelo de avaliação, a campanha Magalhães, o Estatuto do Aluno e o concurso para professores titulares, assim de repente, medidas não testadas, não preparadas, sem formação; atropelos à lei?, bastou ouvir, da boca de directoras regionais, que se deve tolerar o escandaloso excesso de faltas dos alunos nos CEF, ultrapassando o legal, o possível e o imaginário, a bem do desígnio do combate ao abandono, quando há limites legais para a formação profissional. Ao longo destes anos, confesso que o que me tem incomodado mais é o lançamento apressado e mal preparado de medidas novas com objectivos pouco claros e racionais.
 
7. O “problema” da Educação, no nosso país, não se resolve nas escolas. Se cuidar de investigar a Educação em países que estão na linha da frente neste tema, poderá reparar – a menos que não esteja interessado em reparar – que todos têm um traço comum: o papel e a postura da família perante a escola. É precisamente neste aspecto que Portugal peca em maior grau, sendo que a Maria de Lurdes Rodrigues coube a pouco nobre tarefa de piorar, ainda mais, o papel e a postura da família perante a escola, quer denegrindo a imagem dos professores aos olhos do público, quer aligeirando, substancialmente, a exigência do nosso sistema de ensino para com os seus alunos, tanto ao nível dos conhecimentos, como ao nível da assiduidade. As turmas de percursos curriculares alternativos e os cursos de educação e formação, que proliferam, a um ritmo assustador, nas nossas escolas, e que muito jeito dão para efeitos estatísticos de sucesso educativo, são apenas uma forma descarada, ou camuflada, conforme o observador, de qualificar de forma positiva o insucesso de uma parte significativa da nossa população. Porque o verdadeiro insucesso continua! Continuamos a ser um país onde abunda a iliteracia e a ignorância, defeitos que, depois da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues, passaram a dar direito a diploma!
publicado por pedro-na-escola às 21:27
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