Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Combate ao facilitismo e outras aventuras

Consta que uma das prioridades do “Programa Eleitoral para as eleições legislativas“ do PSD é a Educação. A saber:
 
“A educação é a base do livre desenvolvimento da pessoa, o alicerce de todo o nosso desenvolvimento económico, social e cultural. O combate ao facilitismo e a recuperação do prestígio dos professores serão linhas mestras do nosso programa de acção.”
 
Mas que coisa é essa do “facilitismo”?
 
Combater o quê, concretamente?
 
Se for para combater o fraco nível de exigência dos alunos do ensino básico, isso implica aumentar o nível de exigência e as consequências serão óbvias: mais reprovações. Porquê mais reprovações? Por causa da inércia intelectual, claro.
 
Se for para combater o êxodo de alunos para percursos alternativos, sejam turmas de PCA ou CEF, percursos esses que permitem uma progressão sem grande esforço e consequentes lacunas nas competências de final de ciclo, então o regresso ao currículo regular ditará, também, as consequências do costume: mais reprovações.
 
E, tendo em conta que o povo português não se importa minimamente que os jovens sejam qualificados com competências que, de facto, não têm, então, teremos a continuidade da política do “faz-de-conta”, a bem da grande e única missão dos grandes partidos políticos: mais votos para poder continuar no poder.
 
Já agora, ocorre-me que, pretendendo combater algo a que chamam facilitismo, o remédio passará, parece-me, pelo oposto: dificuldades. Ou, numa linguagem mais rebuscada: exigência. Isto, partindo do princípio que a exigência e as dificuldades são necessárias à formação de bons profissionais (todos os jovens acabarão por ser profissionais de qualquer coisa), apesar de muita gente achar que não.
 
Assim sendo, qual é o caminho a seguir para aumentar a exigência no nosso sistema de ensino público? Algum há-de ser. Mas, se for para seguir os conselhos dos conselheiros dos últimos anos, o resultado serão mais umas medidas de faz-de-conta, com teorias infundamentadas, para “inglês ver”, mais ou menos rebuscadas, sem resultados práticos. Porque assim tem sido as últimas décadas.
 
Duvido que seja desta que se lancem medidas, no sistema de ensino, que envolvam, de facto, os pais.
 
Quem está no terreno, sabe perfeitamente que a prestação dos alunos depende quase sempre dos respectivos pais. São raras as excepções. Porque, por trás dos casos de insucesso estão, quase sempre, pais que se demitiram de controlar e de exigir. Porque, por trás dos casos de sucesso estão, quase sempre, pais que não se demitem de controlar e de exigir.
 
Quem está no terreno, também sabe que as habilitações académicas e o nível económico dos pais são praticamente irrelevantes. Porque, embora fechemos os olhos a essa realidade, o que não faltam são alunos cujos pais não têm mais que o 5º ou 6º ano, mas que, mesmo assim, são excelentes alunos. Aliás, o que não falta, na sociedade, é casos de licenciados, mestres e doutores, provenientes de famílias humildes e com baixas ou nenhumas habilitações académicas.
 
Há quem vá buscar a desculpa dos pais divorciados, para justificar algum insucesso, mas, a bem dizer, não faltam casos de pais divorciados cujos filhos nunca foram afectados seriamente nos seus percursos escolares.
 
Na prática, o que conta mesmo é o que os pais fazem em casa: o controlo que exercem, aquilo que exigem e as expectativas. Tudo o resto torna-se irrelevante.
 
Não se vislumbra, nas décadas mais próximas, partido político algum que esteja disposto a implicar realmente os pais no sistema de ensino. Exigir que prestem contas pelo mau desempenho dos filhos, com consequências.
 
Enquanto uma parte significativa dos pais dos alunos portugueses continuar a achar que tem o direito de deixar andar os filhos na escola como querem e lhes apetece, mesmo que isso prejudique gravemente as aprendizagens dos colegas, e esses mesmos filhos continuarem a achar que têm o direito de não aprender, então, não vamos a lado nenhum!
publicado por pedro-na-escola às 16:04
link do post | comentar | favorito

~posts recentes

~ E a Terra é plana…

~ A propósito dos melhores…

~ A propósito de oportunida...

~ A propósito das paranóias...

~ Especialistas em educação

~ O que vai ficar por fazer

~ Nuno Crato e a definição ...

~ Mega-Agrupamentos 4 - a p...

~ Mega-Agrupamentos 3

~ Mega-Agrupamentos 2

~ Mega-Agrupamentos

~ O segredo do sucesso nas ...

~ A anedota da vaca

~ Por falar em reduzir as d...

~ Agressividade de autores ...

~ Brincando às competências...

~ Pois, realmente, não foi ...

~ Contas ao número de aluno...

~ Reforço da autoridade dos...

~ Incompetência ao rubro...

~links

~arquivos

~ Julho 2011

~ Junho 2011

~ Maio 2010

~ Abril 2010

~ Março 2010

~ Novembro 2009

~ Outubro 2009

~ Setembro 2009

~ Agosto 2009

~ Julho 2009

~ Junho 2009

~ Maio 2009

~ Abril 2009

~ Fevereiro 2009

~ Janeiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Novembro 2008

~ Outubro 2008

~ Abril 2008

~ Março 2008

~ Fevereiro 2008

~ Janeiro 2008

~chafurdar no blog

 
RSS