Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

O jogo dos critérios de correcção

Este ano, fui corrector dos exames nacionais de Matemática do 9º ano. Não querendo inventar muito, eu diria que é possível fazer um estudo prévio de impacte percentual de alguns dos critérios de classificação. Isto é, estatisticamente, consegue-se prever, com alguma óbvia margem de erro, o efeito benevolente de alguns dos critérios. Uns pontinhos aqui, uns pontinhos ali, alargados à escala nacional, traduzidos em percentagem, conseguem fazer subir a taxa de sucesso. Não estou a insinuar que alguém fez este estudo estatístico, ou que há alguma espécie de manipulação algures, mas, considerando a honestidade que eu, a título pessoal, não reconheço na equipa do Ministério da Educação, não consigo evitar pensar como isto é possível.
 
É que, depois de corrigir e classificar os exames, fiquei com a nítida sensação que as provas dos exames nacionais são umas insignificâncias. Não interessa se são fáceis ou difíceis, bem ou mal concebidas. O que faz a diferença, são os critérios de classificação!
 
Paralelamente, parece que, nas reuniões do GAVE com os supervisores, procurou-se não dar espaço para que fossem colocadas muitas dúvidas ou para que se fizessem ouvir vozes (que fora muitas) discordantes e escandalizadas. E o GAVE deu orientações aos supervisores para que, nas suas reuniões com os professores correctores, também não fosse dado espaço para discussão, sendo que as ordens superiores são para cumprir cegamente. Uma série de “complementos” aos critérios de classificação, muitos deles recebidos de boca aberta, foram transmitidos exclusivamente por via oral, não havendo registo escrito (excepto nos apontamentos dos correctores, claro).
 
Quanto à benevolência dos critérios de classificação e dos seus “complementos” orais, houve, de facto, uma tendência crónica para pontuar “raciocínios”, mesmo que as perguntas fossem respondidas incorrectamente. É qualquer coisa do género de pagar a um engenheiro civil por ter feito uma coisa com ligeiras parecenças com uma ponte, só porque tem um tabuleiro e uns pilares, mesmo que não aguente com uma bicicleta e caia à menor rabanada de vento. Chama-se a isto premiar coisas mal feitas, ainda que parecidas. Na Matemática não deveria ser assim, por ser uma disciplina mais objectiva, mas, realmente, a objectividade era apenas para os critérios das perguntas de escolha múltipla.
publicado por pedro-na-escola às 08:46
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