Domingo, 5 de Julho de 2009

Primeiras escolhas

A cada vez que surge uma notícia sobre Educação, nos jornais online portugueses, há sempre uma crónica chuva de comentários depreciativos sobre os professores. Eles ganham balúrdios, estão cheios de mordomias, não fazem nada, têm três meses de férias todos os anos, não são avaliados, são uns privilegiados, só trabalham quatro dias por semana, etc.
 
Mas que extraordinário e invejável emprego eu tenho! É tão extraordinário e tão invejável, que eu, depois de muito meditar sobre o assunto, sou levado a pensar que os cursos universitários de formação de professores são a primeira escolha da esmagadora maioria dos estudantes portugueses, na perseguição incansável de uma profissão de sonho, em que se ganha extraordinariamente bem, não se faz nada, há férias com fartura e nada-se em privilégios.
 
Os cursos de Medicina, Saúde, Direito, Arquitectura, etc., são, na esmagadora maior parte dos casos, segundas escolhas dos estudantes, depois de falharem o acesso a um curso de formação de professores. É fácil perceber. Quem for para médico, passará o resto da vida a lidar com gente doente, a mexer em tripas e ossos partidos, enfim, noitadas de bisturi em riste, uma canseira. Quem for para enfermeiro, passará o resto da vida a trocar fraldas borradas a velhotes, a dar injecções, a mudar pensos, enfim, uma chatice. Quem for para advogado, para além de não se livrar da má fama, passará o resto da vida a mexer em toneladas de papel, a revirar milhares de páginas de legislação, a gastar a voz em julgamentos sem fim, a inventar defesas e acusações, enfim, pior que isso, só mesmo andar a acartar baldes de massa. Quem for para arquitecto, passará o resto da vida a enrolar e desenrolar canudos de papel, a pensar em edifícios e plantas, a inventar, a criar coisas novas, a aturar clientes cheios de mau gosto, enfim, mais valia ter ido para trolha. E por aí fora. E os dentistas?, dia e noite a levarem com o mau hálito dos clientes! E os veterinários?, a mexer em bosta de vaca! É tudo profissões de segunda escolha, portanto, mal pagas, sem privilégios, sem férias, onde são explorados pelos impiedosos patrões.
 
Só ainda não consegui perceber como é que, sendo assim, as médias de entrada para os cursos de segunda escolha acabam por ser muito mais altas que as médias para as primeiras escolhas, ou seja, para os cursos de formação de professores – a profissão de sonho em Portugal. É um mistério…
publicado por pedro-na-escola às 20:08
link do post | comentar | favorito

~posts recentes

~ E a Terra é plana…

~ A propósito dos melhores…

~ A propósito de oportunida...

~ A propósito das paranóias...

~ Especialistas em educação

~ O que vai ficar por fazer

~ Nuno Crato e a definição ...

~ Mega-Agrupamentos 4 - a p...

~ Mega-Agrupamentos 3

~ Mega-Agrupamentos 2

~ Mega-Agrupamentos

~ O segredo do sucesso nas ...

~ A anedota da vaca

~ Por falar em reduzir as d...

~ Agressividade de autores ...

~ Brincando às competências...

~ Pois, realmente, não foi ...

~ Contas ao número de aluno...

~ Reforço da autoridade dos...

~ Incompetência ao rubro...

~links

~arquivos

~ Julho 2011

~ Junho 2011

~ Maio 2010

~ Abril 2010

~ Março 2010

~ Novembro 2009

~ Outubro 2009

~ Setembro 2009

~ Agosto 2009

~ Julho 2009

~ Junho 2009

~ Maio 2009

~ Abril 2009

~ Fevereiro 2009

~ Janeiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Novembro 2008

~ Outubro 2008

~ Abril 2008

~ Março 2008

~ Fevereiro 2008

~ Janeiro 2008

~chafurdar no blog

 
RSS