Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Líder mundial a repensar a educação… ou não…

 

Especialista considera Portugal "líder mundial a repensar a educação"
25.06.2009 - 07h39 Lusa – in www.publico.pt
 
O especialista canadiano em tecnologia Don Tapscott aponta Portugal como um exemplo a seguir na educação, elogiando o investimento em computadores individuais nas salas de aulas. Num artigo de opinião publicado no blogue Huffington Post - onde já escreveu Barack Obama -, Tapscott dirige-se directamente ao presidente dos Estados Unidos da América: "Quer resolver os problemas das escolas? Olhe para Portugal!".
 
Na opinião de Tapscott, o "modesto país para lá do Atlântico", que em 2005 via a sua economia "abater-se", está a tornar-se no "líder mundial a repensar a educação para o século XXI". A presença de computadores nas escolas é "só uma parte" dessa "campanha de reinvenção", frisa Tapscott, que aponta a "criação de um novo modelo de ensino" como a "maior tarefa".
 
"Não é fácil mudar o modelo de ensino. Aliás, essa é a parte difícil. É mais fácil gastar dinheiro, como Portugal fez, a pôr Internet nas salas de aula e equipar os alunos com computadores", afirmou, acrescentando ainda que "é demasiado cedo para avaliar o impacto na aprendizagem", até porque os estudos sobre a presença de computadores nas aulas foram "inconclusivos".
 
"Os professores que enfrentam uma sala de aulas cheia de miúdos com computadores precisam de aprender que já não são os especialistas no seu domínio: a Internet é que é", escreve Tapscott. Aludindo à sua experiência numa sala de aulas numa estadia em Portugal, Tapscott conta como os alunos recorreram à Internet para resolver uma questão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, grupos de alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-a aos colegas".
 
Mudança na relação professor/aluno
 
"Estavam a colaborar, estavam a trabalhar ao seu próprio ritmo e mal reparavam na tecnologia, no propalado computador portátil. Era como ar para eles, mas mudou a relação que tinham com o professor. Em vez de se agitarem nas cadeiras enquanto o professor dá a lição e escreve apontamentos no quadro, eram eles os exploradores, os descobridores e o professor o seu guia", descreve Don Tapscott.
 
Este modelo, afirma, permite aos professores "descer do palco e começar a ouvir e a conversar em vez de fazer sermões" e encoraja o pensamento crítico e a colaboração. Em oposição, nos EUA, a aprendizagem é "unidireccional", o que faz com que os alunos, que em casa vivem na era digital, com a Internet, os jogos e os telemóveis, estejam "aborrecidos na escola".
 
"As salas de aula americanas precisam de entrar no século XXI. Milhares de professores concordam com isto", afirma Don Tapscott, lembrando que este ano "importantes grupos da área da Educação" pediram a Barack Obama e ao congresso um investimento de 10 mil milhões de dólares para melhorar a tecnologia na sala de aula e garantir que os professores sabem usar computadores eficientemente".
 
Don Tapscott, professor na Universidade de Toronto e membro do grupo de reflexão nGenera Insight, escreveu vários livros sobre tecnologia e visitou Portugal em Abril deste ano. O Huffington Post congrega blogues, notícias e artigos de opinião. Além de políticos, actores e académicos contribuem para o site.
 
Esta peça jornalística, datada de 25 de Junho de 2009, é de uma patetice infeliz. Ou, melhor: os comentários do senhor Don Tapscott são completamente patéticos e, cá para mim, só lhe atestam uma incapacidade infantil para analisar o que quer que seja. Basta ler um pouco do que ele escreveu, no original:
 
“So Prime Minister Jose Socrates took a courageous step. He decided to invest heavily in a "technological shock" to jolt his country into the 21st century. This meant, among other things, that he'd make sure everyone in the workforce could handle a computer and use the Internet effectively.”
 
Lá está, a mensagem genial de Sócrates, ao bom estilo do salvador da pátria portuguesa. A patetice da questão é que, de facto, na realidade, Sócrates limitou-se a “investir” à toa no seu choque tecnológico. O pretenso salto para o século XXI faz parte da sua mensagem de propaganda, mas não é um facto. Don Tapscott, com a mesma credulidade, ou ingenuidade, de um qualquer iletrado do Portugal profundo, acreditou piamente que Sócrates garantiu mesmo que todos os cidadãos activos saberiam trabalhar com um computador e usar a Internet. Alguém que acredita num disparate destes, sujeita-se a não ter muita credibilidade, digo eu.
 
Sobre a peça jornalística, saltam-me para a vista, como ciscos, algumas coisas:
 
1. “(Os professores) precisam de aprender que já não são os especialistas no seu domínio: a Internet é que é!”. Ora bem, eu, professor de Matemática, já não sou um especialista em Matemática. A Internet é que é a especialista. Claro. Como é sabido, a Internet caiu do céu num dia de sol, já com conteúdos prontos a consumir.
 
2. “(…) experiência numa sala de aulas numa estadia em Portugal (…)”. Dito assim, parece que o senhor andou numa de “um-dó-li-tá” até lhe sair na rifa uma das mais de 1200 escolas portuguesas, quiçá do interior do país, onde, espantosamente, o desenrolar dos acontecimentos numa sala aleatória dessa escola cumpria idealmente com a metodologia de utilização dos computadores em contexto de aula. Que pontaria!
 
3. “(…) eram eles os exploradores, os descobridores e o professor o seu guia (…)”. Que bonito que parece, quando se passa esta ideia. Isto é válido para uma determinada percentagem da população discente, que tem sede de aprender o que a escola tem para ensinar, ou, no pior caso, que tem pais em casa que exigem determinantemente que aprendam. Quanto aos restantes, em percentagem ainda por determinar mas certamente escandalosa, a exploração e os descobrimentos aplicam-se ao que os discentes desejam aprender e não ao que a escola tem para ensinar, sendo certo que uma coisa não tem nada que ver com a outra – exceptuando quem vive no mundo da Lua e pensa que a grande maioria da população discente portuguesa estará desejosa de aprender português, inglês, francês, matemática, ciências, história, geografia, etc., só porque agora o pode fazer com recurso à Internet.
 
4. “(…) o que faz com que os alunos, que em casa vivem na era digital, com a Internet, os jogos e os telemóveis, estejam "aborrecidos na escola" (…)”. Sempre houve, e haverá, alunos aborrecidos na escola. Faz parte da natureza humana. Especialmente quando em casa têm acesso ilimitado ao divertidíssimo mundo da Internet, para consulta de sites, visualização de vídeos, chats, redes sociais, jogos, etc., e o telemóvel, que é mais vulgar que um relógio de pulso, lhes permite contactar com os colegas, tirar fotografias, ouvir música, jogar, etc. A era digital é tão atraente por causa da diversão que proporciona! Nós, adultos, é que podemos ver a era digital como uma oportunidade de usar ferramentas poderosas para fins profissionais ou de aprendizagem. Mas, as crianças e jovens não pensam como os adultos. Mal seria se o fizessem.
 
5. “As salas de aula americanas precisam de entrar no século XXI. Milhares de professores concordam com isto (…)”. Entrar no século XXI significa não renunciar às ferramentas disponíveis. Significa não ficar agarrado aos quadros de ardósia, quando há quadros brancos e quadros interactivos. Significa não ficar agarrado apenas aos livros, quando há também a Internet. Um quadro de ardósia e um livro, são tão eficientes no ensino, hoje, como o eram no século passado. Não devemos é ficar colados ao século passado, ignorando o que este século nos coloca à disposição.
 
6. (…) garantir que os professores sabem usar computadores eficientemente”. Alguns americanos andam a chagar a cabeça ao Obama para investir em tecnologia nas Educação, mas, note-se, com a condição implícita da formação adequada dos professores para potenciar esse investimento. Qualquer semelhança com o investimento nos Magalhães, em Portugal, é puro disparate. Digo-o com conhecimento de causa, depois de participar na lendária formação de dar ao remo e cantar.
publicado por pedro-na-escola às 19:20
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2 comentários:
De Sísifo a 25 de Junho de 2009 às 20:08
Caro colega, concordado consigo em muito do que escreveu, permito-me, para não repetir o que enunciou, chamar a atenção para algo que o Eça, já o séc. XIX, se fartava de martelar: dá a sensaçao que só porque o senhor é canadiano, deve ser escutado e idolatrado.

Para mim, é um idiota: espero que poucos o ouçam, pois seguir o nosso Sócrates e a sua política arrasaria com a educação do outro lado do Atlântico.


De pedro-na-escola a 25 de Junho de 2009 às 22:56
Eu não lhe chamei idiota, mas pensei nisso com muita intensidade... :-)

Infelizmente, é provável que muitos o ouçam, porque, afinal, a fórmula de Sócrates é fácil e rende: bastam uns trocos disfarçados de investimento, umas frases bombásticas ditas com ares de verdades universais, meia dúzia de números vistosos, e o assunto Educação fica arrumado. Desde que, obviamente, o espírito crítico da comunicação social esteja estrategicamente engarrafado e arrumado numa gaveta...



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