Terça-feira, 23 de Junho de 2009

A Matemática, os exames e outras coisas

Já passou o “stress” da preparação dos meus alunos para o exame nacional do 9º ano. Entre os brilhantes comentários da Sociedade Portuguesa de Matemática e da Associação de Professores de Matemática, os textos e comentários nos blogs, e as perguntas dos meus colegas sobre o grau de dificuldade do exame, apetece-me divagar um bocadinho:
 
1. Cada vez mais, acho que seria extraordinariamente divertido haver exames nacionais às demais disciplinas do 3º ciclo. Não desejo mal a ninguém, mas há dias em que cansa ver a Língua Portuguesa e a Matemática a serem as únicas disciplinas a levar com as luzes da ribalta.
 
2. Não é só uma questão de atenções para estas duas disciplinas. Há, na realidade, um acréscimo de trabalho para quem as lecciona: pela preparação para os exames nacionais, que abrangem três anos de escolaridade, e pela posterior correcção de algumas dezenas de exames, a quem calhar essa tarefa. Um acréscimo de trabalho que, por ausência de compensação monetária ou outra, a bem dizer, espelha alguma injustiça.
 
3. Aliás, era bom que, de uma vez por todas, se esclarecesse, de forma objectiva, que não há um “problema” chamado Matemática. Esta disciplina serve, tão só e apenas, de bode expiatório para um mal mais geral.
 
4. Tenho alguma esperança de que, neste ano lectivo, a minha pequena escola não figure, novamente, nos últimos 50 lugares do ranking nacional. A dezena de alunos que este ano frequentou um CEF, o primeiro a funcionar na nossa escola, representa, na prática e sem rodeios, menos dez negativas no exame nacional de Matemática do 9º ano.
 
5. Sobre o grau de dificuldade do exame nacional de Matemática do 9º ano, deste ano de 2009, há várias perspectivas. De um modo geral, e na minha perspectiva de professor de Matemática, acho que o exame era muito fácil. Na perspectiva dos conteúdos, apelava, de facto, a um domínio muito básico da matéria, de qualquer um dos anos do 3º ciclo. A interpretação continua a ser um obstáculo omnipresente, se bem que o termo “interpretação” pode, contrariando os “especialistas” em educação, ser facilmente confundido com falta de brio, falta de persistência, preguiça mental, ou desleixo. Os meus alunos “queixaram-se” que foi muito fácil, mas já descobriram algumas asneiras patéticas e evitáveis.
 
6. Ora, esta hipotética “facilidade”, confrontada com os erros cometidos pelos alunos neste exame e com os resultados que serão públicos daqui a umas poucas semanas, leva-me à minha já antiga convicção de que temos um problema sério com os programas das nossas disciplinas. Como é que os alunos, durante o ano, resolvem problemas com complexidade e dificuldade muito superior aos do exame, nas fichas de avaliação ou de trabalho, e, depois, espalham-se ao comprido no exame?
 
7. Desta falha, que se evidencia num exame perante uma questão cuja dificuldade é diminuta, faço uma leitura simples: há uma fraqueza na aplicação do conhecimento a situações diversas.
 
8. Esta fragilidade da aplicação do conhecimento é um sintoma que resulta – na minha humilde opinião – do exagero de conteúdos que marca a generalidade das disciplinas do sistema de ensino em Portugal. Começando pela Matemática. Falo por mim, correndo o risco de contra mim falar: a preocupação com o cumprimento do programa está sempre acima da preocupação com a assimilação e o domínio dos conteúdos por parte dos alunos.
 
9. Aliás, isto entra em sintonia com a ideia que vigora no país: a quantidade é sempre melhor, mais importante e mais vistoso, do que a qualidade.
 
10. Porque, falando pela parte que me toca, passei o ano lectivo em contra-relógio. Programa do 9º ano para cumprir, preparação dos alunos para dois testes intermédios e um exame nacional, revisão dos conteúdos de três anos de escolaridade, fichas de avaliação, fichas de trabalho e fichas de preparação para o exame. Esta sensação de ter passado o ano a correr, pode significar que sou mau professor. Quiçá. Gostava de saber se sim, ou se não. Mas, na prática, no trabalho desenvolvido com os meus alunos, significa que não houve a serenidade que desejaria para explorar a aplicação dos conhecimentos que lhes transmiti ao longo do ano e, já agora, ao longo dos três anos em que fui professor deles.
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publicado por pedro-na-escola às 23:15
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