Terça-feira, 28 de Abril de 2009

É tudo uma questão de dinheiro

Quanto se fala na desunião da classe docente, quer-me parecer que o dinheiro está na sua origem. A disparatada invenção do professor titular, mais não foi do que um acentuar das diferenças de remuneração.
 
Bem que podemos esgrimir argumentos para trás e para a frente, mas o facto é que o dinheiro fala sempre mais alto do que tudo o resto. A invenção do professor titular teria corrido mal se não fosse o acenar com um grande maço de notas. Ainda agora o ME insiste nesta “arma fácil”, com mais um escalãozinho no final da carreira, mais um maço de notas para que a divisão seja ainda maior. E lá vamos nós na onda.
 
Quanto, numa escola, há um professor A que ganha metade do que ganha o professor B, não há volta a dar-lhe: o professor A pertence a um mundo e o professor B pertence a outro. Fazem o mesmo, mas um ganha o dobro do outro, logo, está instalada uma profunda divisão.
 
Juntando o útil ao agradável, o ME manipulou-nos através do dinheiro, para cortar no nosso rendimento acumulado ao longo da carreira. E fomos na onda que nem uns patinhos.
 
Confesso que me incomoda o discurso de muitos colegas sobre essa coisa do rendimento acumulado ao longo da carreira, dos milhares de euros que vamos perder com esta divisão da carreira, blá blá blá. É estarmos a cair na mesma onda do dinheiro. Parece que tudo o que fazemos se resume a dinheiro.
 
Cada vez mais, sobrevalorizo as condições de trabalho em detrimento de um generoso vencimento. Traduzindo, prefiro ganhar menos, mas trabalhar com alguma dignidade. Prefiro ganhar menos, mas exercer uma profissão respeitada por alunos, pais e sociedade. Prefiro ganhar menos por não subir para titular, só para não ter que exercer o poder de avaliador através de um modelo-faz-de-conta que alguns dementes produziram e com o qual discordo profundamente.
 
Não sou o único a pensá-lo. Há mais professores que adoram ser professores, mas que não se revêem na tarefa de fazerem de conta que avaliam os seus pares, preferindo, portanto, não serem “promovidos” a professores titulares. Abdicam do dinheiro, em prol de alguma sanidade mental e, quiçá, alguma dignidade profissional. Enfim, divagações.
 
A malta bem que acha que tem uma carreira profissional, mas, a meu ver, não temos. Nem temos que ter. Somos professores a vida inteira. Podemos exercer funções de gestão, saltar para o ensino superior, trabalhar numa direcção regional, etc., mas, enquanto somos simples professores, sou da opinião que isso não é nenhuma carreira.
 
Ora, não sendo uma carreira (se me é permitido o atrevimento de ter esta opinião), há que assegurar que a progressão, que não vai haver, é compensada financeiramente por alguma forma alternativa. Isto é, que haja uma mera progressão da remuneração. Mas, não exageremos. Ganhar o dobro de outro colega, não é propriamente uma progressão. É um duplo ordenado. E isso não faz sentido algum, na minha opinião.
 
Também não vejo grande lógica na hipotética situação de um presidente do conselho executivo ganhar um vencimento (já com o suplemento) inferior ao que mais de metade dos professores da sua escola. Tal é possível, mas não vejo a lógica.
 
Pode ser um disparate completo, mas estou a imaginar os sindicados a proporem ao ME a revogação deste ECD e a contraproporem uma “carreira docente” mais simples, com uma amplitude salarial máxima de 300 euros, entre o início e o fim, fazendo-se a evolução em degraus de aumentos percentuais. Uma contraproposta que eleve o vencimento ao início e o baixe no final, diminuindo o fosso. Os professores acumulam menos riqueza ao longo da sua vida profissional e o Estado poupa uns largos milhões em trocos. Uma contraproposta que acene com dinheiro, mas que se faça acompanhar de algumas exigências de outra ordem: o investimento do ME no combate à indisciplina e à violência nas escolas, a responsabilização civil dos pais pelo desempenho intelectual e comportamental dos filhos, o respeito e o reconhecimento público pela profissão docente, o fim das medidas patéticas viradas para as estatísticas, e mais meia dúzia de coisas dentro da mesma onda.
 
Imagino um corpo docente mais igual e, consequentemente mais unido. A união, ou falta dela, tem sido, desde que me lembro, o nosso maior problema, enquanto classe profissional.
 
A continuarmos assim, as vontades do ME serão sempre concretizadas, bastando acenar com mais umas notas. Vendemo-nos com bastante facilidade…
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publicado por pedro-na-escola às 00:30
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1 comentário:
De setora a 21 de Novembro de 2009 às 00:54
Parece-me que está a ver os professores isolados da sociedade. Em Portugal o leque salarial é amplo o que é, na verdade, mau. Mas devemos exigir o estreitamento do leque apenas para esta profissão?
O que tínhamos até antes das titularidades era isso que diz - uma progressão nos salários feita com base no tempo de serviço. Antigamente a coisa media-se em diuturnidades depois passou a medir-se em escalões mas a base do tempo de serviço manteve-se e até me parece o melhor critério.


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