Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Como as faltas baixaram “milagrosamente”…

(o texto é da autoria da presidente de um órgão de gestão, bem conhecida...)

 
Só quem não está na Escolas e acompanha o seu dia a dia é que pode acreditar neste “abaixamento extraordinário” das faltas dos alunos. Perguntar-se-á: não é verdade que as faltas baixaram 22,5% relativamente ao ano passado? Resposta: Meia verdade: baixaram os registos das faltas, não baixaram as faltas.
 
O Estatuto do aluno explica esse abaixamento? Resposta: Meia verdade: os alunos continuam a faltar mas, desde que façam a prova de recuperação, as faltas voltam à “estaca zero” e só servem para efeitos estatísticos!!!
E as provas de recuperação podem suceder-se indefinidamente se os alunos forem sendo aprovados nas respectivas provas que o professor terá que elaborar quando o aluno atinge o limite de faltas previsto no Estatuto.
Casos concretos: um aluno do ensino secundário, 10º ano, tem duas vezes por semana aula de Português. Independentemente da natureza das faltas, sempre que este aluno atinge seis faltas ou tratando-se exclusivamente de faltas injustificadas atinja quatro faltas, devem-lhe ser aplicadas medidas correctivas para que, logo que estas tenham sido avaliadas, o aluno seja sujeito a uma prova de recuperação. Se este aluno fizer a prova de recuperação e tiver tido aproveitamento, as faltas, seja qual for a sua natureza, só são contabilizadas para efeitos estatísticos. E novo ciclo de faltas se pode iniciar…
 
Supomos agora que este aluno chegava atrasado às aulas e o professor lhe marcava falta, como fazia habitualmente: três situações podem ocorrer: ou marca as faltas de atraso e passa o ano a fazer provas de recuperação (afinal o aluno só não assistiu a 10 minutos de aula), ou não marca as faltas por atraso de 5 minutos e amanhã o atraso é de 10 minutos e depois de quinze, porque o aluno sabe que não terá consequências… ou, finalmente o menos expectável é que o aluno deixe de chegar atrasado.
 
Outra situação: o aluno normalmente mal comportado, tem naquele dia um comportamento incorrecto com o professor na sequência de uma recriminação feita pelo mesmo. Três casos se podem dar: ou o professor manda o aluno para fora da sala de aula com uma tarefa para cumprir e marca falta (como era hábito fazer), ou não marca falta e o aluno tem muitos mais comportamentos incorrectos porque não é penalizado ou, o que não é expectável no imediato, passa a ter comportamentos correctos…
 
Até agora foi referida a situação do aluno X mas nem todos os alunos atingem o limite de faltas ao mesmo tempo… o que significa que o professor, para além das actividades normais de preparação de aulas, de elaboração de testes formativos e sumativos, tem que fazer tantas provas de recuperação quantos os alunos que forem atingindo o limite de faltas na sua disciplina. Um professor de Português, com componente lectiva de 22 horas, se tiver turmas do 10º ano terá que ter, no mínimo cinco turmas, se cada turma tiver 28 alunos (máximo permitido por lei) este professor tem 140 alunos. Se tiver 2 ou 3 que resolvam faltar e entrar no esquema das provas de recuperação, veja-se se é viável o professor marcar faltas por atraso ou por mau comportamento!...
 
Há ainda outro factor que contribui para a estatística apresentada sobre as faltas dos alunos e que é o seguinte: Quando as aulas eram de 50 minutos, um aluno que faltasse, por exemplo, durante uma manhã tinha 5 tempos de faltas (entre as 8H30 e as 13H30). Agora, no mesmo período de tempo, o aluno tem só 3 tempos de faltas porque a unidade lectiva é de 90 minutos. Se o aluno faltar a Biologia/Geologia e a Física/Química durante uma manhã, em que as aulas funcionam por turnos e cada unidade lectiva tem 135 minutos de aula, o aluno só tem 2 faltas. Deste modo, passou-se de 5 para 3 e nalguns caso para duas faltas, o que sugere logo uma redução do número de faltas de quase de 50%.
 
Este Estatuto do Aluno permite, pois, uma leitura que não corresponde à realidade de quem está nas Escolas e, como comentava Ramiro Marques no seu blog “Profavaliação” “este estatuto é um monumento ao disparate!” O caso que descrevo a seguir apoia este comentário:
O “Mário”, matriculou-se na Escola no dia 22 de Outubro a duas disciplinas que tem em atraso, Inglês e Matemática Aplicada às Ciências Sociais (MACS), a fim de completar o 12º ano. Desde o início do ano, e já com um mês de atraso, o “Mário” devia ter assistido a 54 aulas de MACS e a 34 de Inglês, mas até dia19 de Março, só assistiu a 16 aulas de MACS (deu 38 faltas, sendo 9 injustificadas) e a 10 aulas de Inglês (deu 24 faltas a Inglês, sendo 5 injustificadas). Desde que o aluno se aproximou do número limite de faltas, a Directora de Turma passou a informá-lo (maior de idade) que tinha que comparecer a aulas de apoio para “recuperar”a matéria das aulas a que tinha faltado. O primeiro aviso, com marcação de datas para as provas de recuperação foi feito a 13 de Janeiro e desde então para cá, os avisos têm-se sucedido bem como a marcação de provas de recuperação. O aluno vem uma vez por outra às aulas curriculares, vem uma vez por outra às aulas de apoio, não fez nenhuma prova de avaliação a nenhuma destas disciplinas, fez uma prova de “recuperação” a Inglês mas sem sucesso (como seria de esperar…) e não compareceu nas restantes provas que lhe foram marcadas. (De referir que, apesar de o aluno ser maior, a mãe foi chamada à Escola para tentar, em conjunto, resolver a situação deste aluno. A mãe compareceu, mas ficou tudo na mesma…)
 
A Escola tentou tudo para que o aluno fizesse as disciplinas por frequência mas o aluno não colaborou com a Escola. Esta situação terminou com o aluno a anular a matrícula antes das reuniões de avaliação, para evitar uma exclusão por faltas que lhe retirava a hipótese de fazer exames na 1ª fase.
 
Em conclusão este Estatuto criou um mecanismo que premeia os alunos absentistas, transmitiu aos alunos e aos pais que não é importante assistir às aulas, ser pontual e cumpridor e transmitiu aos alunos e aos pais a mensagem de que tanto faz ir às aulas como faltar sem justificação, porque, no final, o aluno absentista e desleixado tem sempre mais uma prova de recuperação à sua espera…
 
Nota: as diferentes situações verificadas em diferentes Escolas, no que se refere à aplicação do Estatuto do Aluno, só são possíveis porque a lei permite diferentes interpretações.
publicado por pedro-na-escola às 00:05
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