Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Apagar ou não apagar, eis a questão

A recente “discussão pública” sobre as faltas a relevar, leva-me de volta ao ano lectivo passado, quando nos vimos confrontados, pela primeira vez, com uma bizarra situação de nobre combate à praga do insucesso escolar.
 
Um aluno, fora da escolaridade obrigatória, reprovou o ano por excesso de faltas injustificadas. Excluído da frequência da escola, portanto. Em poucas semanas, uma carta da DREC ordenava ao seu encarregado de educação que o mandasse de novo para a escola, porque o referencial de qualificação em Portugal era o 12º ano e ele nem o 6º ano tinha concluído. Fomos informados desta “devolução”, através de uma cópia da carta. Inquirimos a DREC sobre a base legal deste retorno do aluno. Depois de insistirmos numa resposta escrita, que não chegou, fomos chamados a Coimbra para uma conversa particular com uma senhora directora regional adjunta. Fomos esclarecidos de que o desígnio nacional é o 12º ano e que o abandono escolar é uma catástrofe, pelo que tínhamos o dever de receber o aluno de volta. Questionada sobre a parte administrativa da coisa, isto é, as faltas registadas que deram origem à reprovação, bem como a acta do conselho de turma em que o assunto tinha sido tratado, a ordem foi para relevarmos tudo. Como? Relevando. Autonomia das escolas. Blá, blá, blá. E se o aluno voltar a faltar às aulas? Releva-se. Pois claro. Deixámos de marcar faltas e arrumámos o assunto. Afinal de contas, a lei é para cumprir. Ou não. Depende.
 
Este não é um caso pontual. Numa reunião da mesma senhora directora regional adjunta com vários conselhos executivos, num auditório, e na presença do director de uma delegação do IEFP, foi dito, em alto e bom som, que as faltas dos alunos dos CEF’s também são para relevar, mesmo quando ascendem a números escandalosos, porque o abandono escolar é uma catástrofe e precisamos de ser tolerantes para com os jovens.
 
Há, ainda, um pouco de bom senso na sociedade, que condena moralmente aldrabices deste género. O recente circo do ME em torno deste assunto, mais não foi do que uma tentativa para esconder, da sociedade, a realidade das escolas e as estratégias e ordens que são ditadas de cima para baixo nas hierarquias. Foi uma tentativa bem conseguida, tenho que reconhecer, mercê de uma comunicação social que é tudo menos livre e isenta.
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publicado por pedro-na-escola às 00:08
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1 comentário:
De tg a 12 de Abril de 2009 às 17:00
Terrível é, com base nesta legislação estúpida que nem os supostos (ir)responsáveis levam a sério - e da qual parecem ignorar o perverso alcance-, assistir-se a ambientes acusatórios e envenenadores da relação entre professores nas próprias escolas. É onascimento de uma nova aristocracia dos "técnicos da papelada" que nalguns casos já passam atestados de incompetência -em público!-a colegas que não têm competência técnica ou científica para avaliar ou criticar...


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