Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

As castas

Por José Pacheco, in www.educare.pt  

 
Impávidos, assistimos à depreciação das práticas e à sobrevalorização da burocracia. Como diria Salazar, temos aquilo que merecemos: neste caso, mais um... escalão!
 
Dizem-me que não devo abordar "assuntos-tabus", mas o desassossego derrota a prudência. Desta feita, deparo com a recente proposta ministerial de criação de um escalão para os professores que não consigam ascender a titulares. Reflictamos...
 
Sabemos que educar pressupõe relação, estar com. Porém, subsiste um paradoxo: quanto mais longe o educador estiver da relação, da prática de sala de aula, maior salário aufere e mais elevado estatuto social parece deter. Beneficia de subsídios de função, de abonos, remuneração de "cargo superior".
 
Estou crente de que, se cargos "superiores" houvesse, o mais elevado deveria ser o trabalhar com crianças. Porém, no sistema implantado, apenas as castas mais puras podem aspirar a aproximar-se dos deuses... As deserções para funções ditas "superiores" são tantas, que parece que os melhores professores são aqueles que conseguem libertar-se das agruras da sala de aula. O sistema de castas infectou a profissão docente. Na hierarquia instituída, alguns trabalhos são tão impuros que apenas certas castas poderão realizá-los. E a remuneração - que difere de função para função, de docente para docente - é sintoma da infecção. O que justifica a existência de escalões, o abismo salarial existente entre professores com diferentes tempos de serviço?
 
Seguindo a lógica do funcionalismo público, quanto mais tempo se for fiel ao seu senhor, maior salário se auferirá - quanto mais servil, maior a recompensa. A lealdade ao Estado é recompensada, mesmo que pouco se trabalhe ou nada se faça.
 
E porque será que um doutor ou um mestre deve auferir maior salário que um licenciado? Quando eu já era mestre em educação, recebia salário de bacharel, só por ter optado por continuar professor do ensino fundamental. Mas não me queixo...
 
Considero injusto que haja salários diferentes para idênticos horários de trabalho. Mas considero imorais salários diferentes para o exercício da profissão nos mesmos espaços e em idênticas condições. Que razões ocultas legitimam que eu (professor aposentado) aufira o dobro do salário do meu filho (professor em início de carreira)? Porque se mantém a antiguidade como critério de graduação? Que alguém me ajude a entender!...
 
Os professores "inferiores" tudo suportaram com infinita paciência, porque sempre estiveram divididos. Ilustrarei com um (triste) exemplo.
 
Recentemente, estalou uma polémica em torno dos critérios utilizados num concurso. Professores excluídos diziam que outros passaram à frente, garantindo que foram colocados colegas com menos anos de experiência. A professora Sofia queixava-se de haver colegas que, "por não terem sido denunciados, foram colocados e vão ter regalias". O Ministério afirmava que "não podia fechar os olhos às denúncias", mas havia quem manifestasse a opinião de que "a colega Sofia só pretendia passar à frente de tudo e todos" e que "como não há galhos para todos os macacos, começaram os desentendimentos" (sic). Uma só voz saudável se ergeu para comentar a polémica: "É aviltante aferir a falta de ética de alguns docentes, que falseiam dados. É o triste reflexo da falta de dignidade crescente da profissão de professor."
 
De que nos queixamos, se alimentamos mentalidades decadentes? Estamos divididos em sectores, segmentados em ciclos incomunicáveis e com diferentes componentes lectivas. Existe ensino superior e ensino inferior (embora o eufemismo ensino "não-superior" não conste do dicionário).
 
De que nos queixamos? Impávidos, assistimos à depreciação das práticas e à sobrevalorização da burocracia. Como diria Salazar, temos aquilo que merecemos: neste caso, mais um... escalão!
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publicado por pedro-na-escola às 00:14
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