Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Quando custa admitir que se é professor

Abandonam o ensino antes do tempo, pedem a reforma antecipada por desencanto e cansaço. Saem com mágoa, mas de cabeça levantada, tranquilos por terem cumprido a missão. Batem com a porta indignados com o "desrespeito" pela classe. Em 2008, mais de cinco mil professores deixaram de dar aulas.
 
Luísa Pires, 34 anos na docência e 58 de idade, professora de História na EB 2,3 da Maia, já pediu a reforma antecipada e aguarda o sinal verde para abandonar o ensino. Reflectiu bastante. "A minha decisão não foi leviana, pensei muito bem". "Dei um passeio pelo meu trajecto e lembrei-me de uma professora que conheci que admitia que não gostava, que não tinha apetência, para ser professora. Lembro-me de, nessa altura, ter perguntado o que seria de mim se não gostasse de dar aulas." "Não se pode ser professor sem gostar, é impossível."
 
Foi delegada da disciplina de História, coordenou a biblioteca da escola no ano passado, está há 27 anos na EB 2,3 da Maia. "Desde 2005, que está a ser feito um ataque absolutamente inqualificável aos professores e à escola pública." Não concorda com o processo de avaliação proposto pela tutela "por não servir rigorosamente a nada do que o Governo diz" e lamenta que a classe docente "tenha sido tão desvalorizada". Sai desiludida e indignada. "Eu que amo a minha profissão", desabafa. Chegou a não querer assumir aos outros que era professora. "Sentia vergonha do que se dizia sobre nós", confessa. Luísa Pires sai com mágoa, depois de uma decisão "dolorosa". "Sinto que poderei ficar em dívida com a sociedade porque sou uma pessoa válida, que poderia continuar a trabalhar se tudo decorresse na normalidade". O futuro é, em seu entender, "dramático". "Estão a destruir um bem que é necessário preservar e nunca se ouviram as pessoas certas", acusa.
 
O ano de 2008 foi doloroso. Remou contra uma maré que diz ser feita de "altercação, de desatino, de contradições, de inverdades". E não esquece a "veemência" na sua declaração de voto contra o modelo de avaliação proposto pela tutela. "Não votarei esta proposta, pois ela assenta numa profunda mentira, não é verdade que tudo isto sirva para promover e desenvolver as aprendizagens dos alunos". Fernanda Rego, professora de Português na EB 2,3 de Leça da Palmeira, docente titular com assento no Conselho Pedagógico, pediu a reforma em Dezembro, aos 33 anos de serviço. Abandona precocemente o ensino e, neste momento, recusa dizer que ser professor é uma profissão. "Exactamente por ter tantas implicações, esta minha decisão tem a génese de um foco essencial: a autenticidade com que sempre me pensei e na qual actuei, com uma atitude de abertura e de humildade perante a imensa tarefa que é o nobre acto de ensinar. Nunca o dissociei de outra vertente também ela fundamental: o aprender".
 
"A certa altura deste processo que é a aprendizagem, perante tudo o que é novo e nos coloca desafios, percebi que não era possível escamotear a realidade, aquela que era filtrada pela verdade que eu conseguia perceber naquilo que estava a acontecer". Fernanda Rego escreveu uma carta à ministra da Educação. "Não tecerei este texto à volta da palavra indignação, embora me sinta indignada. Ela tem enchido as ruas, as avenidas e as praças deste país e isso não parece demover a senhora. Não usarei muitas palavras a não ser as estritamente necessárias para lhe dar conta, senhora ministra, que a minha perplexidade perante a situação que a educação está a viver não se diz só com palavras, pois as mesmas palavras que se dizem, também precisam de ser ouvidas", escreveu.
 
A carta termina com uma certeza: "(...) nada farei na parte final deste meu percurso que ponha em causa o que um dia me fez escolher este caminho: professor é coisa de quem ousa fascinar-se, ouvi um dia, um dos meus metodólogos afirmar, e eu acrescento, sem retirar força a este argumento, que ser professor, neste momento, é também e talvez mais coisa de quem ousa ousar...". Sai com mágoa. "Não auguro um futuro próximo nada melhor do que o caótico estado geral de 'coisas' a que assistimos, agora. Irão ser precisos alguns anos, muita vontade política exigida por todos aqueles que ficarem se, acima de tudo, não deixarem de acreditar que esta profissão é uma das belas do mundo".
 
"Ponto final, parágrafo, travessão"
Ana Maria Maia, professora de Português na Secundária do Padrão da Légua, pediu a reforma a 16 de Dezembro do ano passado. Sai com dois anos de penalização: 33 anos de serviço, 60 de idade. "Tenho muita pena, saio com muita mágoa, ainda tinha muito para dar à escola. Saio pelo completo desencanto em que a escola se encontra", explica. Acreditava que só sairia no último dia em que era possível permanecer no ensino, mas antecipou-se. A situação tornou-se insustentável. Ana Maia fala de um sistema que conduziu a "um desrespeito total por uma classe que passou a ser tratada como parasita". "Fez-se uma sangria das escolas que é uma coisa doida", desabafa.
 
Garante que não se arrepende de sair do ensino, mas que o faz com dor. "Tenho saudades de uma coisa que já não existe", reconhece. Nunca se importou de arregaçar as mangas para fazer o que realmente gosta, mas recusa fingir gostar do que agora já não gosta. "São disparates em cima de disparates". Defende que a avaliação dos docentes deveria privilegiar a forma como as aulas são dadas e ficou boquiaberta quando se apercebeu dos novos moldes do concurso para professores titulares, que tinham em conta os últimos sete anos de serviço. A notícia demorou a ser digerida por quem já tinha desempenhado todos os cargos na escola pública e não comprou anos de serviço. "Não deu para esperar". E agora procura uma escola para dar aulas gratuitamente. Longe de qualquer pressão.
 
Graça Coutinho, professora de História na Secundária João Gonçalves Zarco de Matosinhos, está na reforma desde Dezembro. Tem 58 anos de idade e 35 ao serviço da docência. "Já quase tinha vergonha de dizer que era professora", admite. "Foi uma humilhação para os professores a forma como a senhora ministra e os seus acólitos falavam, tratavam a Educação". E ficou bastante incomodada quando ouviu, na televisão, um comentador residente dizer que "os professores eram os inúteis mais bem pagos do país". Pediu a reforma sabendo que iria perder mais de 500 euros por mês.
 
"Nunca pensei sair da escola antes do tempo. Foi sempre a minha profissão, mas perante a situação criada, sobretudo no anterior ano lectivo, comecei a perguntar o que estava ali a fazer, se o ser professor deixava de ter importância e passava a ser um burocrata, com reuniões atrás de reuniões e papéis que chegavam a todos os minutos", revela. O portão da escola está aberto e Graça Coutinho continua a visitar os colegas de profissão. "Sou muito bem recebida". Mas nada a faz trocar o sossego que agora garante ter. "Apercebi-me que no final do dia chegava a casa completamente desgastada". "E ponto final, parágrafo, travessão". É uma nova etapa que começa.
 
Os números ajudam a compreender o descontentamento de quem tem a Educação na palma das mãos. No ano passado, 5.106 professores entraram na reforma. Vários fizeram-no antes do tempo. Decidiram bater a porta, conscientes das penalizações financeiras. As contas mostram que, em média, 425 professores entraram na reforma em cada mês de 2008, mais 110 docentes do que em 2007. Balanço feito: houve um aumento de 35% em relação a 2007.
 
Em três anos, aposentaram-se 19 314 funcionários do Ministério da Educação. No ano passado, quem tivesse 33 anos de serviço, independentemente da idade, podia requerer a reforma, com uma penalização de 4,5% por cada ano que faltar para chegar aos 61 anos e seis meses de idade. A partir deste ano, tudo indica que passará haver limite de idade para quem pretenda solicitar a reforma antecipada. 
 
in www.educare.pt
Sara R. Oliveira | 2009-01-21
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publicado por pedro-na-escola às 23:46
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