Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

No rescaldo da greve…

Antes de me começar a influenciar pelas leituras de outros blogs, vou aproveitar para fazer, a título pessoal, um pequeno rescaldo deste dia de greve.
 
1. Foi a primeira vez que fiz greve. Não fiz greve por causa do modelo de avaliação de desempenho ou do próprio estatuto da carreira docente. O que me moveu, sinceramente, foi a minha opinião pessoal sobre o trio que lidera o Ministério da Educação: que não são pessoas sérias, honestas e com boas intenções. Opinião pessoal, repito. E a greve foi a minha forma de protestar contra a sua permanência naquelas funções e os seus disparates e palermices.
 
2. Na minha escola, e fora os professores que hoje não tinham serviço lectivo mas que ainda poderão vir a comunicar que fizeram greve, contabilizámos uma professora que não fez greve e ficou na escola, ou seja, cerca de 2%, o que corresponde a uma adesão à greve de cerca de 98%. Logo pela manhã, aos alunos foi dada ordem de regresso a suas casas, obviamente.
 
3. À hora do almoço, os canais de televisão fizeram uma passagem por várias escolas do país, praticamente todas com o mesmo panorama: esmagadora maioria de professores em greve, bem acima de 90%. Numa das escolas apresentadas, por exemplo, só não fizeram greve 3 dos 153 professores, o que dá uma adesão de cerca de 98%.
 
4. Logo de seguida, Valter Lemos discursava, com aquele ar de superioridade e desprezo, anunciando com foguetes que cerca de 90% das escolas estavam a funcionar e que a adesão à greve ficava bem aquém das expectativas dos sindicatos.
 
5. Juntando o ponto 3 com o 4, um jornalista mais atrevido comentou que não era preciso saber matemática para perceber que os números (ainda não apresentados) do Ministério da Educação não eram compatíveis com a realidade que se apalpava no terreno, à porta das escolas visitadas por vários jornalistas. Obviamente.
 
6. À noite, Valter Lemos, com a mesma postura de desprezo, apontava para uma adesão à greve de 61%, relembrando, novamente, que este número ficava bem abaixo das expectativas dos sindicatos. Eu bem que gostava de saber onde é que ele foi buscar esse valor. Depois da cena do Estatuto do Aluno, eu, pela parte que me toca, acho que o trio que tutela o ME era perfeitamente capaz de falsificar os números da adesão a seu belo interesse. É triste dizer isto, mas, depois de provas dadas, não sou capaz de acreditar na pretensa honestidade daquele trio.
 
7. Aos conselhos executivos, foi pedido o preenchimento da habitual aplicação sobre a adesão à greve. Os números foram calculados com base no número total de professores e não no número de professores que tinham serviço (lectivo ou não lectivo) no dia de greve. Esta é uma forma de baixar o valor da adesão, é certo, mas, na minha escola, foram vários os professores que, não tendo serviço no dia de greve, fizeram questão de telefonar para a secretaria e declarar que estavam em greve. 
 
8. Mesmo assim, tendo em conta os dados recolhidos pelos jornalistas (singelas amostras), os dados da minha escola e os dados de escolas com que contactámos durante o dia, não vislumbro uma explicação razoável que sustente o valor de 61% de adesão à greve. Matematicamente, seria necessário haver bastantes escolas em que só 3 ou 4 professores teriam aderido à greve, para “equilibrar” a média e produzir uma valor tão baixo como o dado por Valter Lemos. No caso de uma escola como a minha, seria necessário haver uma outra escola com apenas 24% de adesão á greve para que a média caísse para 61%.
 
9. Sobre o encerramento, ou não, das escolas, os conselhos executivos da região centro receberam um e-mail com um esclarecimento sobre o assunto, para efeitos estatísticos, a saber: se uma escola tiver ficado sem professores e, por consequência, sem alunos, mas mantenha os serviços públicos de atendimento, bar, cantina, reprografia, etc., é considerada como “em funcionamento”, não se devendo considerar “encerrada”. Do ponto de vista estatístico e propagandístico, este foi um esclarecimento oportuno, convenhamos. Como sempre.
 
10. E é escusada toda a discussão sobre a participação dos sindicatos em todo este movimento que culminou nesta monumental greve. O que moveu os professores, não foi o apelo dos sindicatos, mas, julgo, a dignidade de cada um. Os sindicatos foram levados por arrasto, na crista da onda.
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publicado por pedro-na-escola às 22:23
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3 comentários:
De Miguel Pinto a 3 de Dezembro de 2008 às 22:43
"O que moveu os professores, não foi o apelo dos sindicatos, mas, julgo, a dignidade de cada um. Os sindicatos foram levados por arrasto, na crista da onda."
Não havia necessidade, Pedro. É evidente que os sindicatos devem, preferencialmente, legitimar as aspirações dos professores. Seria bom que não nos demitíssemos da intervenção cívica para não nos deixarmos ultrapassar. Não será assim?


De pedro-na-escola a 3 de Dezembro de 2008 às 23:41
Somos muitos e cada qual tem a suas motivação. A minha maior motivação, bem como a de muitos dos meus colegas, na minha escola, foi precisamente a dignidade ferida.
Talvez me tenha expressado mal, agora que releio.
Obviamente que o papel dos sindicatos não se deve relevar, nem eu relevo, embora de vez em quando possamos sentir alguma desilusão em relação aos mesmos. Por vezes, eu sinto. Injusto? Talvez.
Obrigado pela chamada de atenção.


De Miguel Pinto a 3 de Dezembro de 2008 às 23:50
Com a pressa de correr pela blogosfera não concluí o comentário anterior. O ponto 9 é certeiro e revela algo que nos deve preocupar: para o ME a função principal da Escola é a custódia. Percebe-se agora a preocupação com a escola a tempo inteiro e o alargamento do conteúdo funcional do professor para valências de monitorização e de supervisão (açambarcadas aos auxiliares de acção educativa). Lamentável.

Força companheiro!


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