Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Porque faço greve

Tal como muitos colegas, amanhã, 3 de Dezembro de 2008, vou fazer greve pela primeira vez. Nunca pensei fazê-lo. Sou mais de acatar, pacatamente, as novidades emanadas de cima, quase como um cordeirinho, e executar as ordens dadas. Enfim, cada um é como cada qual. Sou mais de encolher os ombros com a falta de visão e bom senso de quem, ao longo de décadas, tem passado pela tutela do Ministério da Educação.
 
No entanto, esta faceta de “cordeirinho” só é válida enquanto presumir que quem me tutela é uma pessoa minimamente honesta, uma pessoa de bem, séria, que apenas falha nas medidas que toma, tanto porque desconhece a realidade e as realidades, como porque é aconselhada por pessoas que desconhecem a realidade e as realidades. Assim tem sido ao longo de décadas e por isso a Educação em Portugal continua a não ser grande espingarda.
 
Ora, com a actual ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, e os seus dois secretários de estado, o panorama mudou drasticamente.
 
Pessoalmente, a gota que faltava para entornar o copo de água foi mesmo o espectáculo com a alteração do Estatuto do Aluno: uma lei que diz, claramente, que, independentemente da natureza das faltas, os alunos que faltam têm de ser sujeitos a uma prova com consequências penalizadoras, é espectacularmente alterada por um despacho dominical, disfarçado de esclarecimento, que diz que, afinal, depende da natureza das faltas a prova ter ou não consequências, e que esta até pode ser uma entrevista e não uma prova; não bastando isto, a ministra lava as suas mãos acusando as escolas de terem interpretado erradamente “o espírito” da lei. Quem faz uma jogada desta, às claras, com fanfarra e toque de sinos, não pode ser uma pessoa honesta, séria e de bem. Lamento, mas não pode!
 
A isto, junta-se o desgoverno de todo o ministério e das direcções regionais, de que me apercebo diariamente, no exercício de funções no conselho executivo da minha escola. Esta é uma apreciação algo subjectiva, eu sei, mas, no nosso gabinete, quase não passa um dia em que não olhemos uns para os outros, estupefactos com mais um desnorte vindo de cima na hierarquia do sistema.
 
A isto, juntam-se as palermices associadas ao Estatuto da Carreira Docente e ao modelo de Avaliação do Desempenho dos Docentes. E digo palermices, porque, uma coisa é o leque de opções políticas, tais como a limitação da progressão na carreira, a alteração do modelo de avaliação do desempenho, ou a mudança nas regras para gestão dos tempos não lectivos. Pode não concordar-se, mas, “come-se”. Outra coisa, bem diferente, é quando se entra no espectro da patetice e da aberração, tal como foi a forma de promoção à categoria de professor titular, a existência de quotas na avaliação, ou a inclusão dos resultados escolares como parâmetro de avaliação.
 
A isto, junte-se a fantástica fórmula das Novas Oportunidades, destinadas a certificar, ou qualificar, ou seja lá o que for que o senhor primeiro-ministro tanto adora, que mais não é do que uma farsa nacional como não há memória. Após séculos de história da humanidade, em que o objectivo da Educação e do Ensino era proporcionar conhecimentos e sabedoria, chegámos a uma nova era, em que o saber e o conhecer são espezinhados e humilhados por essa necessidade alucinante de certificar ou qualificar toda a gente, a qualquer custo, com o objectivo único da estatística.
 
A isto, junte-se o desperdício gigantesco e – pasmo! – não contabilizado, concretizado na literal oferta (ou semi-oferta) de computadores portáteis, sem qualquer critério, sem qualquer contrapartida, a todos os alunos. Com a agravante moral de, a uma escala nacional, se estar a colocar, nas mãos das crianças e jovens deste país, acesso livre e sem restrições a esse mundo cheio de perigos que é a Internet.
 
Faço greve, porque quero protestar contra o facto de ser governado por pessoas que não me merecem respeito e às quais não reconheço valores básicos como honestidade, seriedade ou boas intenções.
 
Faço greve, porque desejo, como nunca antes, e assim o quero demonstrar, que a senhora ministra e os seus dois secretários de estado abandonem as suas funções.
publicado por pedro-na-escola às 21:16
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