Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Traduções e Analogias 2

6. Sucesso – o milagre 
 
É aprovada uma lei que obriga todos os alunos a pertencerem a uma equipa de futebol. Não interessa se têm capacidades para tal, se têm gosto pela bola, se têm mais que fazer, se são coxos, cegos, mudos ou se preferem brincar às bonecas. Cada treinador tem a seu cargo várias equipas, repartindo o seu tempo pelos treinos das ditas. Assim, em cada equipa, há jogadores que adoram o que fazem e que são óptimos no que fazem, mas também os que fazem um frete imenso, os que acham aquilo uma patetice e uma perca de tempo, os que preferiam antes jogar basquetebol, os que são coxos e claramente não conseguem acompanhar um jogo, os que se estão completamente nas tintas, os que se divertem a boicotar os treinos e os jogos, os que acham o máximo gozar com o treinador e com os outros, e os que faltam aos treinos para fumarem umas coisas que fazem rir e beber uns copos.
 
Depois dos treinos, há um plano de acção para os jogadores, para realizarem em casa, que envolve alguma preparação física diária e cuidados com a alimentação. Ainda há, para completar a peça, os pais dos que não gostam de futebol, que por sua vez também não gostam de futebol, e que reclamam com o treinador por tudo e por nada, especialmente se não forem seleccionados para as equipas da divisão acima.
 
Com este panorama, espera-se que os treinadores sejam capazes de fazer milagres, com exibições e brilharetes em cada jogo, com todos os jogadores motivados e em excelente forma. Espera-se que se batam, com igual vigor, equipas com estas pluralidades contra equipas em que todos adoram futebol, cumprem com os planos de acção em casa e dão sempre o seu melhor.
 
Coitados dos que adoram futebol, mas calham numa equipa em que a maior parte dos jogadores só se interessa por literatura, cultura e ciências, borrifando-se para qualquer actividade física. Coitados dos que adoram futebol, mas calham numa equipa em que alguns jogadores boicotam constantemente os treinos com divagações intelectuais sobre línguas e ciências, passando o treinador a maior parte do tempo a tirar-lhes os livros das mãos e a mandá-los correr atrás da bola. Coitados dos que são coxos, mas para os quais o treinador acaba por não ter tempo para lhes dedicar e tentar potenciar facetas em que podem ser melhores que os outros, porque tem que andar a correr atrás dos malandros dos livros e da cultura e das literaturas e das ciências.
 
Depois, para gáudio da comunidade letrada do país, a Federação Lusitana de Futebol lembrou-se da genial ideia de impor um modelo de avaliação do desempenho dos treinadores, para que os jogadores e as equipas comecem a ter melhores resultados nos jogos e façam um vistaço nos campeonatos internacionais.
 
E começou bem, impondo que, em cada concelho, só possa haver um treinador com excelente na sua avaliação, e apenas dois com muito bom. Continuou bem, promovendo alguns dos treinadores mais velhos à categoria de treinadores titulares, só porque eram mais velhos, cabendo-lhes as funções de avaliadores dos restantes.
 
Obviamente, o número de golos e vitórias dos seus jogadores passariam a pesar na avaliação, assim como o número de jogadores que definitivamente abandonavam as suas equipas para se dedicarem aos estudos, às artes, à cultura e ao voluntariado – um escândalo, porque os custos anuais do Estado com o treino de cada jogador subia à módica quantia de 5000 euros!
 
O que vale, é que, em termos de golos e vitórias, também contavam os jogos à porta-fechada só entre os elementos das próprias equipas, o que permitia aos treinadores “facilitarem” as coisas a seu favor, com coxos e ceguinhos a marcarem golos directos da linha do meio campo, e os revoltados dos livros, da cultura e da ciência, a cabecearem, vezes sem conta, o esférico para o fundo das redes.
 
Com esta brincadeira toda, para os treinadores e treinadores titulares sobravam resmas de papéis e grelhas, reuniões e treinos assistidos, só para darem vazão à ganância da Federação Lusitana de Futebol, como se o fundamental da sua profissão – o treino dos jogadores e das equipas – passasse para um segundo plano.
 
Entretanto, o genial primeiro-ministro da república, dotado de poderes visionários, elaborou um inteligente plano para distribuir, a todos os jogadores, aparelhos electrónicos de pulso para medição em tempo real do ritmo cardíaco, velocidade de deslocação, altitude, pressão atmosférica, temperatura ambiente, nível de açúcar no sangue, colesterol e ácido úrico, para além de permitirem ver televisão e virem equipados com uma câmara fotográfica. Segundo o visionário, o uso diário destes aparelhos permitiria potenciar as capacidades desportivas dos jogadores, colocando o nosso país no pelotão da frente dos países com o futebol mais tecnológico.
 
Esta medida levantou alguns problemas entre os treinadores, especialmente por causa dos malandros dos livros, da cultura e da ciência, que, pasme-se, só usavam os aparelhos para verem os canais de televisão da RTP2, National Geographic, História, etc., em vez de os usarem para a melhoria dos seus desempenhos desportivos. O povo, direi eu, revoltar-se-ia com estas barbaridades no desporto-rei. Ou não.
 
Se o povo fosse pela cultura, pela ciência, pela literatura, até bateria palmas à federação, que permitia que os anti-futebol prejudicassem sistematicamente os pró-futebol, que saltava em cima dos treinadores por serem supostamente os culpados dos fracos resultados desportivos, e que até dava televisões de pulso para os putos terem acesso à cultura e à ciência. Pois, porque, para este povo culto, o futebol era algo secundário e quase dispensável – bastava saber chutar uma bola, mesmo que não fosse além de meio metro.
publicado por pedro-na-escola às 20:11
link do post | comentar | favorito

~posts recentes

~ E a Terra é plana…

~ A propósito dos melhores…

~ A propósito de oportunida...

~ A propósito das paranóias...

~ Especialistas em educação

~ O que vai ficar por fazer

~ Nuno Crato e a definição ...

~ Mega-Agrupamentos 4 - a p...

~ Mega-Agrupamentos 3

~ Mega-Agrupamentos 2

~ Mega-Agrupamentos

~ O segredo do sucesso nas ...

~ A anedota da vaca

~ Por falar em reduzir as d...

~ Agressividade de autores ...

~ Brincando às competências...

~ Pois, realmente, não foi ...

~ Contas ao número de aluno...

~ Reforço da autoridade dos...

~ Incompetência ao rubro...

~links

~arquivos

~ Julho 2011

~ Junho 2011

~ Maio 2010

~ Abril 2010

~ Março 2010

~ Novembro 2009

~ Outubro 2009

~ Setembro 2009

~ Agosto 2009

~ Julho 2009

~ Junho 2009

~ Maio 2009

~ Abril 2009

~ Fevereiro 2009

~ Janeiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Novembro 2008

~ Outubro 2008

~ Abril 2008

~ Março 2008

~ Fevereiro 2008

~ Janeiro 2008

~chafurdar no blog

 
RSS