Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

A métrica da coisa

Desde a semana passada que, na minha escola, se começa a falar nessa coisa das moções e da suspensão da avaliação. Dizem os colegas que, à semelhança das outras escolas, deveríamos tomar uma posição colectiva e parar com a coisa.
 
Parar. Porque, a bem dizer, a coisa sempre avançou na nossa escola. Fizeram-se reuniões, esventraram-se fichas, inventaram-se indicadores, deram-se piruetas para cozinhar instrumentos de registo, perderam-se horas e horas a martelar na coisa.
 
É, como diria a astróloga, uma postura de “não negar, à partida, uma ciência que desconhece”. Tudo bem.
 
Depois de todas essas horas de dedicação à “causa da ministra”, começou a chegar-se a uma série de becos sem saída. Porque, uma coisa, é o que se imagina, do alto de um cadeirão ministerial, e outra, é algo que se descobre ser improvável de medir com seriedade.
 
Ou seja, ao mexer na massa, mesmo ainda antes de se começar a confrontar os avaliados com os avaliadores, começamos a coleccionar uma série de parâmetros para os quais, tanto a formulação de objectivos, como a sua métrica, são impraticáveis, se quisermos ser sérios no que fazemos.
 
Isto cimenta-nos a ideia de que este modelo foi mesmo mal feito, passando à frente o facto de ter por base autênticos disparates (a forma como os avaliadores chegaram a tal e as quotas, por exemplo). Mal feito, porque inventado à pressa, copiado de exemplos que não são exemplo, aplicado em cima do joelho, não experimentado.
 
O facto é que, à semelhança de várias profissões, a de professor não pode ser, no seu desempenho, avaliada da mesma forma com que se avalia um qualquer trabalhador de uma empresa.
 
Veja-se a profissão de Enfermeiro. À semelhança da nossa, os seus profissionais não produzem bens. Prestam, por assim dizer, um serviço público. Lidam com pessoas, com a massa humana, mas não fazem milagres. Nem os médicos fazem! Devem ser avaliados pelo serviço que prestam, que não pode, nem deve, traduzir-se em meros números.
 
Devem prestar um serviço de qualidade, isto é, cumprir com as obrigações profissionais: dedicação, zelo, brio, correcção, isenção, disponibilidade. Digo eu, que sou barbeiro.
 
Façamos as contas ao contrário: o que não gostaríamos de ver num profissional de enfermagem? Que tipo de comportamentos identificaríamos como base para uma avaliação negativa de um enfermeiro? O número de doentes curados? O número de doentes atendidos? O número de compressas poupadas?
 
Eu, no meu papel de utente, teria algum receio de ser atendido por um enfermeiro cujo desempenho profissional fosse baseado em números, tornando-se estes mais importantes do que o próprio atendimento pessoal, cuidados e atenção que me pudesse prestar.
publicado por pedro-na-escola às 21:28
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