Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

A saga dos Magalhães 4

Há um pormenor estranho nesta iniciativa fantástica dos “Magalhães” para todas as crianças do 1º ciclo: primeiro aparece a máquina e, só depois, com sorte, a formação!

 
Vamos imaginar uma empresa com milhares de trabalhadores, espalhados por milhares de sucursais, dispersas por todo o país. De repente, o dono da empresa decide que todas as sucursais vão passar a viver um ambiente moderno e informatizado, invadindo os espaços com computadores, mesas digitalizadoras, impressoras e Internet. O parque informático será operado por software específico para as valências e actividades administrativas daquela empresa, com ligações em rede. Há software para manobrar as máquinas, outro para gerir os stocks, outro para a contabilidade, outro para administração, outro para a partilha de documentação em rede, outro para isto e outro para aquilo. Os trabalhadores passam a recorrer à Internet para mexer na conta bancária da empresa, para receber pedidos de encomendas, para processarem as contribuições ao fisco, etc. Porreiro, pá! O mínimo dos mínimos, para que isto fosse um processo de mudança com pés e cabeça, seria preparar previamente os trabalhadores para a mudança. Dar-lhes formação para lidarem com todos os pacotes de software previstos, operarem com todo o equipamento novo e utilizarem os recursos necessários na Internet. No mínimo! Seria um perfeito disparate, digo eu, espetar com toda aquela panóplia nas sucursais da empresa e esperar que, de repente, os trabalhadores começassem a trabalhar com tudo aquilo como se sempre o tivessem feito ao longo da vida ou como se estivessem a beber mais uma cervejinha. Seria pouco inteligente esperar, por exemplo, que os trabalhadores aprendessem, sozinhos e por si próprios, a trabalhar com todas aquelas novidades. O disparate teria, como consequência óbvia, as sucursais às bolandas, os trabalhadores atarantados com o equipamento e com os programas, os clientes à espera, incrédulos, e a empresa a afogar-se num mar de tecnologia ao qual se atirou sem barco, sem bóia e sem saber nadar.
 
Esta estória foi uma pequena analogia com o programa “e-escolinha”. Exagero? Claro que é, em especial para quem vive num mundo à parte.
 
A realidade das escolas do 1º ciclo é muito simples:
·    A maioria dos professores lida diariamente com a tecnologia informática.
·    Usa-a para o seu trabalho individual, profissional, de preparação das aulas, registos, relatórios, etc.
·    Usa-a para que os seus alunos recorram à informática e à Internet de forma proveitosa para o ensino-aprendizagem.
·    Uma parte significativa dos alunos olha o computador como um aparelho muito amigável e não como um bicho-de-sete-cabeças.
 
Ora, esta realidade não é, de todo, compatível com uma nova realidade que a invasão do “Magalhães” trará às escolas. A saber:
·    Um computador para cada aluno, implica uma dinâmica na sala de aula que os professores desconhecem.
·    Um computador por cada aluno, que é o seu computador pessoal, que vai e vem todos os dias para casa, traz outros detalhes técnicos imprevisíveis, tais como alterações às configurações, jogos, jogos, mais jogos, imagens, ficheiros, vídeos, etc.
·    A dinâmica de uma sala de aula, com um computador por aluno, faz-se com alguns recursos novos, seja software ou aplicações online, os quais terão que ser aprendidos e dominados previamente pelos professores.
·    Controlar dois computadores numa sala de aula, prevenindo visitas a sites indesejáveis ou jogos não autorizados, implica um controlo muito menor e muito diferente de uma situação em que cada aluno tem o seu computador, com um ecrã minúsculo.
 
Haja a consciência de que, para se aprender a usar um novo software educativo, numa sala de aula, há dois aspectos principais:
·    A aprendizagem de todas as funcionalidades do software.
·    A dinâmica para colocar esse software a uso, com os alunos.
 
Haja a consciência de que, quando se pensa as coisas na base do desenrascanço:
·    Uma coisa, é um professor com uma grande facilidade em lidar com a informática, professor de TIC ou de outra disciplina, seja para instalar novos programas, corrigir erros ou explorar novos recursos.
·    E outra, é um professor que usa a informática dentro das balizas da sua prática profissional, com pouco à vontade, evoluindo em pequenos passos.
 
Se isto tudo não é um grande disparate, não sei que lhe chamar...
publicado por pedro-na-escola às 00:05
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