Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

A saga dos Magalhães 3

Esta iniciativa do Ministério da Educação, tão apaparicada e elogiada por vários quadrantes, pensadores e comentadores de bancada, deixa-me com algumas preocupações. Para quem está a favor, seja por que motivo for, estas preocupações não passarão de blasfémias, exageros e disparates de quem está sempre do contra e não quer que o país avance nesse mar da tecnologia e da modernidade e blá-blá-blá... Seja! A mim, é que ninguém as consegue tirar…

 
Para que não haja dúvidas, estamos a falar de meio milhão de computadores portáteis nas mãos de outras tantas crianças, de norte a sul do país. Convém desmistificar o equipamento, pois, apesar da sua aparência infantil e fofinha, o “Magalhães” é um computador portátil. Traz o Windows XP Pro e tem capacidade para ligar a uma rede wireless (e à internet, por conseguinte). Há um orgulho babado, nos vários parceiros da iniciativa, em referirem que o “Magalhães” será o primeiro computador em muitos lares portugueses. Comercializou-se, na FNAC, creio que ao preço de 285 euros.
 
Posto isto, as minhas preocupações dividem-se em dois aspectos simples: a segurança e a segurança.
 
A primeira segurança, diz respeito à propriedade das máquinas.
 
De um momento para o outro, meio milhão de computadores portáteis começará a circular nas ruas portuguesas, feitos pastinhas de mão, transportadas por outras tantas criancinhas. Não quero ser agoirento, mas roubar um “Magalhães” será tão fácil como roubar um doce a uma criança. É só apanhar uma distraída, e zás!
 
Não é certo que cada criança transporta consigo um telemóvel, diariamente, e, mesmo traga um consigo, é provável que não seja grande máquina. Não é certo que cada criança virá a transportar diariamente um computador portátil, mas a probabilidade de o fazer é demasiado grande para que os amigos do alheio fiquem de braços cruzados, a vê-los a passar. Para mais, há uma ligeira diferença entre um telemóvel que se dá a uma criança de 7 anos e um computador portátil que no mercado vale mais de 200 euros.
 
Mas, não é preciso andar à cata de criancinhas indefesas, na ânsia de lhes sacar o valioso “doce”. Se as criancinhas estiverem em grupinhos, torna-se mais fácil, convenhamos, até porque em cada mão do larápio levam-se facilmente três ou quatro de uma vez. Melhor que uma criancinha indefesa ou um grupinho delas, é uma sala de aula com vinte “doces”, mais o “doce” do próprio professor. Em especial, se a sala de aula ficar numa escola algures num ermo. Mas, nem é preciso tanto. Na minha vila, bastam três fulanos para limpar uma escola com duas salas, encaixando o produto de quarenta “Magalhães”: um no carro e outro para cada sala. É só entrar de rompante, deitar a unha às máquinas, distribuir umas chapadas pela pouca resistência e sair correndo. Eu não quero ser agoirento, mas este filme deixa-me preocupado.
 
O representante da J. P. Sá Couto, quando confrontado com a possibilidade de os “Magalhães” levarem sumiço, seja por venda directa no mercado negro, seja por via do assalto, anunciou que as máquinas deixam de funcionar ao fim de três meses fora da escola. Segundo ele, tem que ver com a ligação à Internet na sala de aula. Uma misteriosa ligação, digo eu, que permite reabilitar os “Magalhães” depois de X tempo fora. Três meses, porque, no máximo, o aluno estará os meses das férias de verão fora da escola. Não é por nada, nem é para ser do contra, mas, numa sala cheia de pessoas intimamente ligadas à informática, o anúncio não pareceu convencer ninguém…
 
A segunda segurança, diz respeito à utilização das máquinas.
 
Lá em Cantanhede, os formadores bem que martelaram na tecla do “controlo parental”, essa fantástica manifestação de soberania dos progenitores e tutores das criancinhas. Através de software, os pais conseguem controlar a utilização dos computadores por parte das criancinhas, seja na estipulação das horas em que aquelas podem utilizar o computador, seja nos programas que podem usar, ou, mais fantástico ainda, nos sites da internet que podem visitar.
 
Como mero exercício académico, pus-me a correr, um a um, os pais dos alunos da minha escola, imaginando-os a exercer essa fantástica manifestação de soberania. Tenho a dizer que não correu muito bem. Tirando os que não estão para se chatear com o assunto, os que não estão para perder tempo a aprender a ligar um computador, os que têm medo de mostrar que não conseguem mesmo mexer no computador, os que sabem ligar o computador mas que ficam apavorados com a ideia de carregarem num ícone, os que até estão ligeiramente familiarizados com computadores mas que não se atrevem a ir mais além que o Word ou o Internet Explorer, e os que acham que as suas crianças são umas santas e que por isso não vale a pena perder tempo com essa coisa do “controlo parental”, sinceramente, sobram-me poucos pais que venham a exercer, de facto, esse controlo. Não quero ser do contra, mas, eu conheço os pais dos alunos da minha escola! A senhora ministra, não conhece, tal como os seus secretários de estado e todos os profissionais envolvidos nesta iniciativa do “Magalhães”. Para mais, são poucas as pessoas que conhecem os efeitos nefastos de uma utilização excessiva (e sem controlo) de computadores por parte de crianças ou jovens.
 
Partindo para um cenário mais grosseiro, e pondo as coisas de uma forma brejeira, estamos a oferecer, a centenas de milhar de crianças com menos de dez anos, acesso gratuito aos mundos da pornografia e da violência. Seja através da Internet ou directamente com uma “pen”.
 
Temos pais que não vêem qualquer problema em assistir a um filme pornográfico na companhia dos filhos. Temos irmãos das criancinhas em idade de saírem da casca e descobrirem o mundo maravilhoso do sexo. Temos amigos das criancinhas, tios das criancinhas, primos das criancinhas, vizinhos das criancinhas. Temos pais que são paus mandados dos filhos e que imediatamente acederão a uma “ordem” dos gaiatos para meterem internet em casa. Temos acesso livre à Internet em espaços públicos, via wireless, pomposamente disponibilizado por juntas de freguesia e outras entidades, orgulhosas do salto tecnológico e do sinal de modernidade. Temos plataformas como o “hi5”, onde milhares de jovens portuguesas menores de idade exibem constantemente fotografias pessoais em poses eróticas, frequentemente revelando uma acentuada crise de têxteis lá em casa, com a bênção dos pais e mães que acham que o “hi5” é o “hi5” e que o “hi5” é muito giro e ah e tal e a minha filha percebe tanto de computadores e estamos tão orgulhosos da nossa filha que até é uma santa. Temos pedófilos e molestadores, que, com a maior das facilidades, passam por jovens e crianças quando, através do MSN ou de salas de chat, contactam com verdadeiros jovens e crianças, criando laços, intimidades, relacionamentos, expectativas e pontes para um contacto físico real, com a bênção dos pais que sorriem perante o supostamente inocente vício do MSN, nesse fantástico mundo virtual que é a Internet. Eu não quero ser do contra, mas…
 
Sobeja-me a alegria de saber que já há pais que não querem comprar o “Magalhães” aos filhos e que se recusam embarcar nesta onda. Para eles, quer-me parecer, a educação dos filhos vem em primeiro lugar. Acima de qualquer histeria colectiva e de qualquer iniciativa menos convincente.
publicado por pedro-na-escola às 00:05
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3 comentários:
De Assistencia Tecnica a 5 de Março de 2009 às 08:44
Ola Pedro,

Gostei do teu post.

De facto o magalhaes foi usado como porta estandarte deste governo, de modo a tapar os olhos aos tugas e a desviá-los dos problemas que temos.

Convido-te a participar no meu blog de assistencia tecnica informatica onde tenho alguns posts sobre o a Assistencia do Magalhaes.

Vais encontrar algumas situações caricatas de pessoas que pagam quantias exorbitantes quando ligam para a linha de apoio ao cliente e quando enviam o magalhaes para reparação.

Acho que o menu inicial que aparece no magalhaes, onde podemos escolher o SO, foi criado com o objectivo de sacar uns cobres às pessoas, pois sem querer formatam o pc e repoe o SO, ficando a arder com os outros programas, obrigando-os a ligar para a linha de valor acrescentado pagando fortunas em chamadas.

Continua com o bom trabalho ...
Abraço,
AF


De Pedro Silva a 25 de Março de 2009 às 23:53
carissimo
1 - o numero 707101480 tem o custo de 0.10€ min rede fixa e 0.25€ telemovel.
2 - para repor o software tem as USB PEN nas escolas

www.suportemagalhaes.com


De AF a 28 de Março de 2009 às 15:06
Boas,

Apesar de ser esse o preço das chamadas, tenho leitores que chegam a pagar 10€ e 15€ numa chamada.

Abraço


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