Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

A saga dos Magalhães 2

É um facto que os dois dias de formação em Cantanhede não serviram de muito. Regressámos todos às escolas com aquela sensação patética de não termos aprendido nada e, consequentemente, não termos nada para ensinar aos nossos colegas do 1º ciclo. Ainda pensámos que iriam distribuir um “Magalhães” a cada escola, para podermos mostrar aos colegas, para estes se ambientarem à máquina que os seus alunos trarão para a sala de aula, mas nem isso. Falou-se em software variado, mostraram-se alguns exemplos, mas ninguém aprendeu a trabalhar com o que quer que seja.

 
A Intel esteve em peso. A Microsoft, também marcou presença. A Caixa Mágica e a J. P. Sá Couto, idem. Se não aprendemos praticamente nada, pelo menos tivemos oportunidades de sobra para reflectir sobre esta iniciativa inédita.
 
Um jovem e dinâmico formador da Intel (inglês falante) mostrou-nos um software bastante interessante para controlo de uma situação de utilização dos computadores em contexto de sala de aula. Permite ao professor controlar, vigiar, bloquear e operar o computador de cada aluno, lançar testes sincronizados, etc. Vimos, mas não aprendemos, porque não experimentámos. Faltou saber onde vamos buscar esse software. Parece que não é gratuito, segundo o formador, mas que as escolas podem consegui-lo gratuitamente através do Ministério da Educação. Ninguém percebeu muito bem como isso consegue, porque também ninguém soube explicar. Entretanto, durante a demonstração das potencialidades do software, o formador começou a rogar pragas (em inglês, claro) à rede wireless que estava instalada na sala, a qual não tinha capacidade para dar vazão à singela operação de visualizar, no computador do “professor”, o ambiente de trabalho de um dos “alunos”. Comentou (em inglês, claro) que, para o software funcionar em condições, a rede não podia ser uma qualquer, tinha que ser especial para o efeito. Não chegou a explicar a especialidade da coisa, mas ficou-nos a pulga atrás da orelha.
 
Numa formação seguinte, com o representante da J. P. Sá Couto, questionei este sobre essa tal rede wireless especial que tinha de ser montada em casa sala de aula do 1º ciclo para que se pudesse usar o tal software apresentado pela Intel (mas que não é da Intel). Após uns sorrisos misteriosos, o senhor respondeu-nos, em jeito de confissão de informações confidenciais de segredo de estado, que sabia de um protocolo entre o Ministério da Educação e as câmaras municipais para o fornecimento dessas tais redes e respectivos equipamentos. E mais não soube dizer.
 
Alguém levantou a questão da obrigatoriedade de o professor do 1º ciclo ter, ele próprio, um computador para poder gerir a sala de aula com os “Magalhães” com o tal software. De onde vem esse computador? Não tem que ser um “Magalhães”, claro, até porque, presume-se que o professor não possa comprar um. Terá que trazer o seu particular? Usará um dos computadores que eventualmente já tenha na sala, colocados em tempos pela autarquia? O Ministério da Educação fornecerá um computador por sala de aula para esse efeito? Ninguém sabe…
 
Uma jovem colega questionou o representante da J. P. Sá Couto sobre a possibilidade de um aluno comprar (ou receber gratuitamente) um segundo computador. O senhor estranhou a pergunta, ao que a colega respondeu com a previsão óbvia de que, ao fim de uma semana, na realidade da sua escola, muitos dos alunos já não teriam a sua máquina, por via da transmissão de propriedade a terceiros, a troco de uns trocados, de uns garrafões de tinto, ou de algo menos legal. Por iniciativa das crianças, dos irmãos das crianças, ou dos próprios pais das crianças. Ninguém sabe.
 
Questionei o mesmo senhor sobre um eventual estudo que tivesse sido feito sobre o impacto da utilização do “Magalhães” na visão das crianças, tendo em conta o ecrã minúsculo da máquina. São menos de nove polegadas de ecrã, que, com a resolução que apresentavam os exemplares que experimentámos, obrigava a ter olho de lince e excelente focagem. Obviamente não há um estudo sobre o assunto, mas o senhor respondeu que até aos 11 anos não tem problema nenhum. Pois, claro que não tem.
 
Por iniciativa própria, o senhor lavou as mãos da J. P. Sá Couto sobre a necessidade de andar a fazer propaganda à sua empresa e ao próprio “Magalhães”. Não era preciso, confessou. O fornecimento de 500 000 exemplares está garantido para este ano lectivo, assim como mais 160 000 para o próximo (alunos do 1º ano), e por aí fora. Junte-se o milhão para a Venezuela e sei lá mais o quê que se seguirá e, realmente, com tanto negócio garantido, a última coisa com que a empresa tem que se preocupar é em propagandear o seu produto-maravilha.
 
Ficou por saber, entre a máquina em si e o software pago que traz instalado, em quanto fica ao Estado (que somos todos nós, no dizer do poeta) cada uma destas unidades de inovação educacional e projecção mundial…
publicado por pedro-na-escola às 22:29
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