Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

A saga dos Magalhães 1

Fui um dos 200 professores presentes em Cantanhede, naquela impressionante “formação” de dois dias para Coordenadores TIC. O tema era o “Magalhães”, esse fenómeno que está a colocar Portugal na mira dos países mais avançados no que toca a Educação. Ou não.

 
Curiosamente, não sou o Coordenador TIC da minha escola. Esse, tem uma mão cheia de aulas, nomeadamente no CEF de informática, e, como tal, não se pode dar ao luxo de desaparecer durante dois dias inteiros. Tal como aconteceu com muitas outras escolas onde a mesma situação se coloca, fui como membro do Conselho Executivo.
 
À chegada, a felicidade de requisitar um “Magalhães” e meter-lhe os dedos em cima. É um computador portátil, como outro qualquer, com um ecrã minúsculo, um mini-teclado para dedinhos de criança, sem porta VGA nem leitor de CD/DVD.
 
As formações começaram de forma serena, por grupos, com vários formadores. Ouvimos falar várias vezes em controlo parental, trabalho colaborativo na sala de aula, vimos como funciona um software para gestão da aula e controlo dos computadores dos alunos, conversámos com um representante do fabricante das máquinas, etc.
 
Não consegui atingir a necessidade de haver uma bateria de formadores estrangeiros, nomeadamente da Intel, a falarem em inglês. A mim, não me fez diferença, mas muitos colegas viram-se à rasca para acompanhar as formações. Mesmo com os tradutores de serviço, bem pagos não se sabe por quem. Esta coisa do “Magalhães” deve ser um projecto bem sofisticado, para não haver, em Portugal, massa cinzenta suficientemente avançada para dar aquelas formações. Digo eu.
 
A meio da tarde do primeiro dia, duas senhoras professoras que colaboram com um instituto qualquer de inovação educacional, ou coisa que o valha, nos Estados Unidos (inglês falantes, portanto), disseram duas ou três coisinhas sobre a utilização das TIC em contexto de sala de aula, mas nada de extraordinário ou relevante. Uma delas, a que discursava e falava pelos cotovelos e gesticulava e ria e esbracejava e fazia a festa e deitava os foguetes, anunciou a proposta de trabalho de grupo que se seguia. Infelizmente, não poderia ficar muito mais tempo por ali, porque tinha um voo de regresso aos Estados Unidos daí a pouco tempo. Mas ficou a missão: elaborar uma obra artística – leia-se canção – subordinada ao tema do “Magalhães”. Qualquer coisa como a viagem do novo “Magalhães” nos mares da tecnologia.

Fomos divididos em grupos de 8-9 pessoas e toca a trabalhar. Foi uma situação de pouco à vontade, convenhamos. No meu grupo, oito estranhos a olharem uns para os outros, a tentarem perceber em que buraco tinham acabado de cair, transformados em artistas de momento e produtores artísticos, quando estavam ali supostamente para aprenderem algo para ensinar aos professores do 1º ciclo.
 
Uns optaram por cantar e gravarem um vídeo da cantoria em grupo. Outros preferiram não dar a cara e gravaram um vídeo sem actores de carne e osso. Os “trabalhos” prolongaram-se até mais tarde do que era suposto, num misto de frustração profissional e triste resignação.
 
Na manhã do segundo dia, ainda alguns grupos davam uns últimos retoques. À chegada, passei por um grupo que actuava para um “Magalhães” estrategicamente posicionado no tejadilho de um carro, webcam em modo gravação. Alguém dedilhava numa viola.
 
Se já havíamos gasto mais de duas horas no final do primeiro dia, às custas da produtividade artística, a manhã do segundo dia estava reservada para o espectáculo público. Ou seja, uma manhã inteira em que os vinte grupos de professores passaram, na íntegra, pelo palco, exibindo publicamente as suas obras artísticas.
 
A estratégia de distribuição de uns papelinhos à saída do palco, garantia a passagem de todos por esse momento de glória.
 
Aqui e além, vozes se levantam contra a figurinha que nós, os presentes, fizemos para as câmaras de vídeo, naquela manhã. A esses, tenho a dizer o que senti durante aquelas horas: como se estivesse recuado umas décadas no tempo, transladado para a antiga URSS, enfiado num evento de propaganda governamental disfarçada e misturado numa uma massa de subjugados que, a bem da preservação da sua condição laboral, não se atrevem a mandar tudo aquilo para as ortigas e regressar nesse preciso momento às suas vidas. Parece um exagero, mas foi o que senti, ali, sentadinho na minha cadeira.
 
As vozes levantam-se contra a figurinha dos professores a exibirem as suas produções artísticas, mas, lamento que não se fale na farsa escandalosa que foi uma formação para Coordenadores TIC em que cerca de 35% do tempo foi passado a preparar uma canção, a exibi-la em público e a ver os outros exibirem as suas. Não foi um pedacinho da formação! Foi cerca de 35% do tempo de formação!!!
 
Nada que não me espante demasiado nos dias que correm. No total dos seis dias inteiros em que tive que abandonar a escola (em momentos cruciais como o encerramento de um ano lectivo e o arranque do seguinte) para receber formação sobre Avaliação do Desempenho dos Docentes, não se abordou o tema durante mais do que duas horas líquidas! Mas, para que se registe, foram seis dias inteiros de formação sobre o tema...
publicado por pedro-na-escola às 21:09
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