Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

O fantástico 75

Já está cá fora, para entrar em vigor hoje mesmo, dia 23 de Abril de 2008. O fantástico 75! Apela-se, por aí, ao boicote a este decreto-lei nas escolas. Eu, sinceramente, não vejo a necessidade de se avançar com uma alteração ao modelo de gestão das escolas, mas a senhora ministra precisa de apresentar obra feita, seja qual for.
 
Na minha escola, não vai haver boicote. Este é o primeiro ano de mandato do conselho executivo a que pertenço, depois de dezassete anos em que, à frente do CE, esteve alguém que não se imaginava a fazer outra coisa que não fosse ser presidente do conselho executivo. Tipo chefe de uma pseudo equipa, cujos membros iam rodando ao longo dos anos, com aspirações a director ou gestor, se o deixassem. Nunca ter havido uma lista a concorrer “contra ele” em eleições para o conselho executivo, pode dizer muito. Afastado abruptamente, através do democrático acto eleitoral, foi obrigado a dar aulas, não conseguindo esconder um profundo rancor por todos os que “conspiraram” para o afastar. Rancor tal, que frequentemente se reúne com os seus fiéis seguidores – dois ou três gatos pingados -, detentores de cargos de coordenação de departamento, para dar instruções sobre como infernizar a vida aos que o afastaram. A situação não deixa de ser patética, pois toda a gente sabe o que se passa, estando de um lado esses dois ou três gatos pingados, e do outro praticamente todos os restantes professores da escola.
 
Com a entrada em vigor do novo modelo de gestão, pensava ele quão excelente seria se ele ainda estivesse no poder. Excelente, porque a facilidade com que se pode perpetuar o poder, daqui para a frente, tanto pode servir para o bem como para o mal. Aliás, ainda ele estava no poder e já fazia “ameaças” sobre o tempo que viria, em que a escola seria comandada por um gestor – na figura da sua pessoa, presumia – que podia e disporia a seu belo prazer, como se todos os profissionais da escola fossem simples marionetas nas pontas dos seus dedos.
 
A oportunidade, finalmente chegou, embora não seja ele que esteja no poder. Para o seu regresso triunfante, basta que, para o conselho geral, seja eleita uma lista de sete professores e dois funcionários que o aplaudam. Porque, a bem dizer, o resto do conselho irá a reboque. E é pelo receio desta situação que não vai haver boicote na minha escola. Vai fazer-se uma lista de professores – os tais que quiseram ver o ex pelas costas – para a eleição para o conselho geral, por forma a que, quando chegarem as candidaturas a director, não se vá fazê-lo regressar à escola.
 
Eu sei que isto é um pensamento pouco democrático, mas, convenhamos, o fantástico 75 pode ter tudo menos espírito democrático. É que, a bem dizer, escolhido o director, o único acto democrático daí para a frente será a eleição para o próprio conselho geral, o tal que vai começar por ser composto por 6 pais e 6 indivíduos alheios à comunidade escolar, num total de 12 votos contra os 9 dos “profissionais da casa”. Quem deseje ficar no poder, só tem que manobrar os cordelinhos para que os votos no conselho geral tendam a seu favor. Eternamente. Quem conseguiu que, durante dezassete anos, ninguém se atravesse a ir a votos numa lista oposta, também conseguiria manobrar os votos de um conselho em que a maioria dos membros não estão sob as suas ordens e que, por isso mesmo, dificilmente veriam necessidade de não votar nele.

Corro o risco de estar a sonhar com fantasmas, mas este modelo de gestão não me cheira nada bem. O que não entendo, mesmo, mesmo, mesmo, é em que parte deste modelo entra o reforço da democracia. Já se sabe que os membros do conselho geral são eleitos democraticamente (apenas 71% são eleitos, na prática) e que o director é escolhido (ou reconduzido no cargo) democraticamente por esses membros, mas…
 
… e se o primeiro-ministro português fosse eleito pelos votos de um grupo de pessoas?, sendo que 28,5% dessas pessoas eram estrangeiras, ou seja, não seriam governadas por ele, outros 28,5% dessas pessoas eram emigrantes, isto é, teriam interesses em Portugal, mas também não eram governadas por ele, e apenas 43% das pessoas eram portuguesas a viver em Portugal com interesses em Portugal e a serem governadas por ele. Ui, que democracia fantástica!!!...
publicado por pedro-na-escola às 22:45
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1 comentário:
De Daniel a 29 de Abril de 2008 às 21:28
"e se o primeiro-ministro português fosse eleito pelos votos de um grupo de pessoas?, sendo que 28,5% dessas pessoas eram estrangeiras, ou seja, não seriam governadas por ele, outros 28,5% dessas pessoas eram emigrantes, isto é, teriam interesses em Portugal, mas também não eram governadas por ele, e apenas 43% das pessoas eram portuguesas a viver em Portugal com interesses em Portugal e a serem governadas por ele. Ui, que democracia fantástica!!!..."

Desculpe mas discordo deste raciocínio, se a escola fosse um sindicato, estaria certo, mas não é. A escola não é dos seus funcionários, mas sim da comunidade.


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