Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

O modelo até faz sentido

Assim por alto, e tirando a inclusão dos resultados escolares, o modelo de avaliação proposto pelo ME até faz sentido. Tenho que admiti-lo. Em determinada altura, enquanto ainda só tinha sido publicado o Decreto Regulamentar n.º 2/2008, resolvi trocar aquilo por miúdos e ficou bem mais simples que o mapa do Metro de Londres.
 
Trocado por miúdos, a escola tem objectivos, colocados por escrito no Projecto Educativo; cada professor escolhe, para a sua acção, objectivos individuais, isto é, aquilo que se propõe fazer como contributo para que a escola alcance os seus objectivos; no final do período de avaliação, o seu coordenador vai avaliar o grau de cumprimento dos objectivos a que se tinha proposto; o Presidente do Conselho Executivo avalia aspectos de índole mais administrativa, como as formações e a assiduidade; como exercício de reflexão pessoal, o avaliado redige uma ficha de auto-avaliação.
 
Na minha ingenuidade, imaginei objectivos individuais: utilização das TIC nas salas de aula, produção de materiais pedagógicos, dinamização de uma disciplina para os alunos na plataforma Moodle, organização de uma “feira das profissões”, etc. O coordenador iria verificar até que ponto o professor cumpriu com o que tinha proposto realizar. Até fiz um powerpoint todo simplex, para mostrar aos colegas!
 
Isto fazia sentido na minha cabecinha. Como modelo, não era nada de especial, embora deixasse de lado os deveres do professor e pecasse por aquele disparate do progresso dos resultados escolares. E também me fez confusão falarem nos objectivos do Plano Anual de Actividades, quando eu pensava que esses objectivos eram os do Projecto Educativo, mas, enfim, é o que dá inventarem tanta papelada.
 
Depois desta abordagem simplex, repleta de ingenuidade, o céu caiu à Terra e praticamente deixei de ver o modelo à frente. Começou com as quotas da avaliação, esse disparate anormal que transforma qualquer modelo de avaliação numa patetice à qual se pode chamar tudo menos avaliação. O modelo desapareceu e deu lugar às incríveis fichas de avaliação, um chorrilho de parvoíces que transformaram um modelo aparentemente simples e credível numa complexa rede de itens e dúvidas. Muitas dúvidas. E muitos disparates.
 
Rapidamente, surgiu no horizonte a oportunidade para muita gente experimentar o orgasmo intelectual múltiplo, ao poderem brincar aos orientadores de estágio com professores mais novos e mais antigos que os próprios. Às dezenas! Aliás, as fichas foram a oportunidade fantástica para muita gente se revelar. Perspectivaram-se logo vinganças sem conta, anunciadas sob a forma de ameaças e dedos apontados. O conceito educativo de “papel” tomou outra dimensão: a da “resma de papel”.
 
Mas, muito sinceramente, o modelo de avaliação do desempenho que vem no Decreto Regulamentar n.º 2/2008 desapareceu e deu lugar a uma brincadeirinha, feita de fichas e despachos e orientações e muitas dúvidas. E é contra essa brincadeirinha, que mais parece o enfiar de vinte rolos de papel higiénico pela sanita abaixo, entupindo-a, que a esmagadora maioria dos professores estão. Porque o modelo já foi à vida! Foi só uma desculpa para fazer aparecer as fichas de avaliação!
publicado por pedro-na-escola às 20:09
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3 comentários:
De mcgs07 a 6 de Abril de 2008 às 11:18
óptimo texto, já o linkei, mas acho que foi o 2/2008 que abriu a porta da capoeira. Concordo que não obrigava a fazer grelhas e espetos cheios de pontinhos e subjectividades. Concordo que não apontava claramente para a ideia de nos mandar a todos outra vez para estágio. Essas ideias vieram dos tais que adoram resmas de papéis e de orientar outros nas escolas e depois, sobretudo do CCAP com os portefólios e o "rigor" da parametrização disto e daquilo e sobretudo do não mensurável.
A posição dos CE da Guarda parece minimizar estragos. Na região de Leiria não me parece ter havido reunião de CEs para terem posição comum face ao ME.


De José Luiz Sarmento a 19 de Outubro de 2008 às 12:34
Pedro, a utilização seja do que for nunca pode ser um objectivo: é sempre um meio. Se o meu objectivo é que um aluno aprenda o teorema de Pitágoras, posso riscar a terra com um bocado de pau ou posso utilizar uma sala de aula toda computadorizada: o resultado é o mesmo, embora a segunda hipótese possa ser mais cómoda para mim e para o aluno.
A profusão de computadores em salas de aula em que falta o aquecimento, o conforto, e até uma simples torneira para lavar as mãos não serve qualquer objectivo meu, nem da escola, nem dos alunos. Pode servir o objectivo do Engº Sócrates de enriquecer certas pessoas, mas com isso eu já não tenho nada a ver.


De pedro-na-escola a 22 de Outubro de 2008 às 21:23
José Luiz... isto começa por se tentar impingir às escolas um tipo de avaliação que se usa nas empresas. É como mandar um elefante passar a usar cuecas.
Eu considero que um meu objectivo possa ser utilizar um meio que habitualmente não uso, como sinal de inovação.
O que não quer dizer que a inovação trará melhorias. Riscar a terra com um pau serve perfeitamente para ensinar uma coisa que alguém quer aprender. Usar um computador para o efeito, não é garantia de que alguém que não quer aprender venha a fazê-lo. Mas há muita gente que pensa que sim... ;-)


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