Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Eu teria dito que…

A propósito do “Prós e Contras” em que participou o Paulo Guinote, tenho pena do nível em que decorreu o debate. O tema aparentava ser a Educação, mas, como habitualmente, tratou-se daquele bicho misterioso que vive lá no além, a quem muitos insistem em chamar “Educação”. Tudo muito filosófico. Tudo demasiado além do real. Valeu a intervenção daquela fantástica professora de Matemática, mas, ainda assim, em pouco tempo se transformou em mais um caso pontual e insignificante, tal como o são todos os casos reais da escola pública portuguesa.
 
Eu gostava de lá ter estado, para poder abrir a boca. Provavelmente gaguejaria que nem um triste, ficaria roxo e tombaria para o lado em estado de bloqueio mental e estrabismo compulsivo.
 
Mas, se lá estivesse estado e conseguisse manter-me calminho e sereno como o Paulo Guinote, eu teria dito que...
 
1. Era escusado teorizar sobre o acontecimento na Carolina Michaelis. Agarrar um adulto à força, gritar com ele e tratá-lo por “tu” é pura e simplesmente inaceitável e completamente condenável. Nem numa tribo selvagem perdida numa qualquer selva equatorial uma cena destas seria aceitável. Ponto final.
 
2. Era escusado andar com aquele discurso idiota do telemóvel. Se não fosse um telemóvel, seria uma abóbora, uma nave espacial ou um caroço de azeitona. Ou nada. Os aparelhos tecnológicos são apenas mais um passo insignificante da História. Com telemóvel nas escolas ou sem ele, o ambiente das escolas, o insucesso, o desrespeito pelos adultos e pelos pares, continuarão todos na mesma onda. Ponto final.
 
3. Era escusado protagonizar tantos discursos em “Eduquês”. Porque qualquer dissertação mais longa sobre pormenores da Educação ultrapassa o razoável e o necessário e entra rapidamente no campo do desnecessário e do idiota. A Educação e o Ensino são processos que devem ser simples, tanto de viver como de explicar. Quando se complica, dando azo a que se escrevam livros inteiros para cada um dos pequeninos detalhes que fazem parte da Educação e do Ensino, começa-se a viajar para bem longe da realidade. Um pastor de cabras consegue ser melhor educador que um doutorado em ciências da educação. Ponto final.
 
4. Era escusado divagar sobre a ocorrência de indisciplina, de faltas de respeito, de violência e de outras situações indesejáveis, buscando justificações rebuscadas e patéticas. Essas situações ocorrem com frequência porque são permitidas, porque não são sancionadas, porque são aceitáveis, porque são sistematicamente desculpadas. Ponto final.
 
Enfim, às tantas foi melhor não ter estado por lá, mesmo sabendo que nunca teria essa oportunidade. Acho que tinha saltado da cadeira e batido em algumas pessoas. Se há coisa que me enoja e incomoda profundamente, é ouvir, em discurso directo, disparates de gente do planeta Marte comentando a gastronomia do planeta Mercúrio, pensando que estão a falar sobre a cor do papel higiénico do planeta Saturno. 
publicado por pedro-na-escola às 16:16
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1 comentário:
De pedro a 2 de Abril de 2008 às 17:08
Concordo com o ponto quatro. Ir buscar o capitalismo selvagem, os novos tempos, os telemóveis, a irreverência da adolescência ou a impreparação da professora não adianta nada. Nada desculpa o sucedido.

De facto, é ridículo trazer à baila a mudança dos tempos e a inadequação da escola às novas realidades quando o que está em causa é uma miúda mal-educada e uma escola em que as regras de funcionamento devem ser uma coisa vaga e pouco presente. Acho que uma solução à século XX/XXI dava conta do recado.

Deitar as culpas, sem mais, à professora também não é muito produtivo. Ou pior, dar a entender que estava a pedi-las (que é o que muito boa gente faz). A senhora, ou eu, ou quem quer que seja, mesmo sendo/estando a ser terrivelmente incompetente, não merece aquele tratamento. Acho que devia haver ali um entendimento mínimo de como um aluno deve tratar um professor, que não dependesse dos estados de espírito do momento. Das duas uma: ou este entendimento mínimo existe e vivemos num sítio civilizado (se há problemas, resolvem-se de outra maneira) ou não -- sendo que neste caso vivemos no mundo o salve-se quem puder.


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