Domingo, 9 de Março de 2008

O SIADAP e a ADD

Isto de fazer parte do Conselho Executivo de uma escola dá um certo jeito para conhecer por dentro certos pormenores.
 
Recentemente vimo-nos às voltas com a avaliação dos nossos funcionários, relativamente a 2007, e com a preparação do processo de avaliação para 2008, segundo o novo modelo, o SIADAP3 (Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública), iluminadíssimo pela Lei n.º 66 -B/2007 e pela Portaria n.º 1633/2007.
 
Depois de esbracejar um pouco pelas páginas de legislação, saltam à vista algumas semelhanças com o modelo de avaliação do desempenho docente (ADD) que a ministra e a sua equipa inventou.
 
1. A complexidade
Lê-se e relê-se a legislação e fica-se sempre com dúvidas e incertezas. Aparece terminologia a que não estamos habituados, tomada pelos autores como se fosse o B-A-BÁ. São conceitos teóricos que se desconhecem e que não se explicam. No fim, fica-se com uma interpretação pouco convicta daquilo que os legisladores poderão querer com o modelo e com os conceitos. Vamos tentar adaptar e implementar da forma como entendemos, embora estejamos pouco certos daquilo que fazemos. O modelo para os docentes, quando comparado, e na minha humilde opinião, é sobejamente mais complexo, envolvendo muitos mais factores e muitas mais variáveis dificilmente mensuráveis.
 
2. A falta de formação
Para este modelo do SIADAP, atirado sem cuidado para cima das instituições, não há formação. Inventa-se, legisla-se e atira-se. Avaliar o desempenho de um profissional exigirá formação, suponho. Se fosse coisa fácil, não haveria especialistas na matéria, como aquele que discursou num Prós e Contras sobre avaliação dos professores. Para tentar reduzir a margem de erro na nossa interpretação, liguei para a DGAEP – Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público, a pedir que alguma alma caridosa pudesse prestar esclarecimentos. Não podia. A resposta foi breve e seca: não há centro de atendimento nem esclarecimento de dúvidas para o SIADAP; se quiser, é enviar um e-mail com a dúvida para os juristas poderem responder. Obrigado.
 
3. As quotas
Também há quotas para o “Muito Bom” e para o “Excelente”. O modelo para os professores parece mesmo chapado do SIADAP, com a única diferença de este último ser mais transparente, porque não envolve factores patéticos como o insucesso e o abandono. Ora, o conceito de quotas na avaliação já é, em si, sintoma de uma deformação completa do conceito de avaliar. Aos olhos do comum cidadão, é como só poder haver dois alunos com média de vinte numa escola, implicando que, a haver um terceiro, há que aldrabar as notas de um deles para que já não tenha vinte e assim não colida com a quota. Toda a gente percebe que não podem entrar todos os alunos em Medicina, mas, por causa disso, há uma ordenação e só entram os que tiverem melhores notas, mas não se pode mexer nas notas dos jovens. E foi isso que tivemos que fazer com a avaliação dos nossos funcionários: aldrabar. Aldrabar em função as quotas. Ou seja, dão-se e tiram-se pontos daqui e dacolá, para ajustar as pontuações finais e não ultrapassar as quotas. Deixamos de avaliar, de facto, e passamos a fazer uma reles engenharia de números. Queríamos distinguir as prestações de alguns deles, que se destacam claramente e pela positiva, mas não podemos, porque há limites impostos; se só podemos dar dois “Muito Bom” e temos três funcionários que se destacam claramente de todos os outros, teremos de deixar de fora um deles, que está ao mesmo nível dos outros dois. Acabámos por fazer aquilo que já é hábito na função pública e que não deixa de nos repudiar: correr toda a gente a “Bom” e tocar para a frente. É isso que nos espera? Teremos as nossas avaliações aldrabadas por causa das quotas impostas?
publicado por pedro-na-escola às 07:14
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2 comentários:
De Jorje a 9 de Março de 2008 às 13:18
Por aqui não há nenhum Post relativamente à grande jornada de luta da oposição ao governo.
Aqui há boas imagens

http://antifalsospedagogos.wordpress.com/



De pedro-na-escola a 9 de Março de 2008 às 15:01
Gostei dessas fotos... gostei... especialmente a do senhor de bigode com ar de pedinte... :-)


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