Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Alguém que me responda…

(um desafio em http://antifalsospedagogos.wordpress.com/)
 
Dos hipotéticos milhares de professores que vão estar no sábado na manifestação, um tenha a coragem de me responder!
(não é preciso coragem para responder… as perguntas são demasiado banais para, sequer, requerer algum tempo para pensar na resposta…)
 
1. Como avaliam o estado da Educação em Portugal desde 1974?
Em 1974, estava a preparar-me para ocupar bancos de escola. Desde que comecei nesta profissão de professor, tenho a sensação de que a Educação em Portugal é uma patetice. Temos um potencial intelectual como qualquer outro país civilizado, mesmo os países “da dianteira”, que é deitado ao lixo por uma cultura de facilitismo acentuado. É, basicamente, uma máquina pouco eficaz e pouco rentável, apesar de termos milhares de médicos, doutores, professores, engenheiros e outros portadores de canudos. A escola portuguesa produz iletrados em abundância.
 
2. Quem são os responsáveis pelo estado da Educação em Portugal?
Quem é o responsável pela Educação em Portugal? Eu até podia ser, se o senhor primeiro-ministro tivesse aceite a minha recente candidatura a Ministro da Educação. Mas não sou. Se, nos dias de hoje, o responsável pela Educação em Portugal chama-se Maria de Lurdes Rodrigues, nos anos anteriores teve outros nomes, outras personalidades e outras equipas. Há que juntar ao rol os teóricos da educação, únicas fontes de informação e ideias para as equipas ministeriais ao longo dos anos. Toda esta gente gerou ideias, políticas, medidas e ordens, a seu belo prazer, bem longe da realidade. Nas escolas, os professores seguem, como sempre, as instruções superiores, mesmo que a maior parte delas dê vontade de mandar as mãos à cabeça. Ordens são ordens, legislação é legislação, e os inspectores correm as escolas, pelo país fora, para garantir que tudo é seguido à risca.
 
3. Qual destes factores deveria ser o mais importante para a promoção na carreira de docente? Os anos de docência ou o mérito no trabalho?
A experiência é uma coisa pouco explícita. Sugere tempo – anos de docência -, mas qualquer profissional pode passar a vida a cometer os mesmos erros, a ser incompetente e a não ter brio no que faz, o que leva a concluir que o tempo, por si só, não é garante de qualidade profissional. Acontece em toda e qualquer profissão. O mérito, esse, tanto pode assistir a profissionais com muita experiência (leia-se tempo), como a outros que tenham ingressado na carreira há pouco tempo. Resta identificar, em concreto, o que se entende por mérito, especialmente na profissão de Professor! Quando é que um professor tem mérito? Tem mais mérito um professor que tem muitos alunos com boas notas, até porque são oriundos de famílias educadas e com exigências em relação aos filhos, ou um professor que tem mais de metade dos alunos com negativa à sua disciplina, porque calhou ter uma turma de alunos cujas famílias acham que a escola é uma treta e que os miúdos ganhavam mais se fossem trabalhar para as obras ou a apanhar laranjas ou a vadiar e a assaltar casas? Faz mais sentido subir na carreira pelo mérito profissional, do que pelo tempo de docência, obviamente. Nunca gostei de ter, como colega de trabalho, o professor João, que, no topo da carreira, era um incompetente crónico, uma besta de homem e uma vergonha para a classe, como sempre foi, a ganhar o dobro do vencimento de alguns colegas excepcionais, dedicadíssimos ao trabalho e aos miúdos.
 
4. A avaliação, é ou não indispensável? De que forma a avaliação deve ser feita? Quais os factores a considerar?
Depende da perspectiva! Não é indispensável para um sistema educativo funcionar em condições. Na Finlândia, não há avaliação do desempenho dos professores! É bom que exista num sentido construtivo, para levar os profissionais a reflectir e melhorar as suas práticas. É bom que exista para poder identificar, com clareza, maus profissionais. Não pode ser feita de modo a absorver as energias e o tempo que deveria ser dedicado ao que realmente interessa: os alunos. Se repararmos, os deveres dos professores, que constam do Estatuto da Carreira Docente, já contemplam uma série de linhas de orientação em relação ao trabalho de cada um na sua escola. Já apontam para a assiduidade, a inovação, a diversidade de estratégias, o apoio aos alunos, etc. Estes deveres deveriam ser, de forma clara, os factores mais importantes a considerar. Afinal, é o que se exige a qualquer trabalhador: que cumpra com os seus deveres! Nos termos em que funciona o sistema educativo português, fazer do sucesso dos alunos um factor a ter em conta na avaliação do desempenho dos professores, é uma patetice só compreensível à luz de uma ganância doentia com números e estatísticas. Em Portugal, a sociedade é que se impõe ao sistema educativo, e não ao contrário, como deveria ser num país que aposte seriamente na Educação! É a própria sociedade que impõe às escolas o insucesso tão chocante que temos!
publicado por pedro-na-escola às 01:16
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3 comentários:
De Anti Tretas a 6 de Março de 2008 às 09:10
Há uma certa confusão na sua cabeça
Não são as perguntas que são banais, mas sim as suas respostas!
Se as perguntas são tão banais porque persistem os problemas?


De Professorinha a 7 de Março de 2008 às 22:39
Deveres parece haver muitos... Já direitos...

Fica bem


De pedro-na-escola a 9 de Março de 2008 às 15:08
Confusão na minha cabeça não vejo nenhuma. Sei o que digo e do que falo, porque é a minha profissão.

As perguntas são banais, porque estão ao mesmo nível das perguntas do género "porque há guerra", "porque há fome" e outras que tais. Não deveriam ser banais, eu sei, e interiormente não acho que sejam, mas é assim que a sociedade as considera. Se não fosse assim, os problemas já estariam resolvidos...

Os problemas persistem porque, quem tem o poder de decisão, das duas, uma: ou conhece a realidade mas não está para tomar medidas para combater os problemas, devido a prioridades políticas e outros interesses, ou, então, não conhece a realidade e as medidas que lança não têm efeitos práticos. Aos anos que os sucessivos governos lançam medidas na área da educação (a actual ministra julga-se a única a tomar medidas) e os resultados não se vêem. Aos anos que os professores avisam que aquelas medidas não vão fazer melhorar nada a situação, mas quem manda é surdo e autista. E assim continuanos... parece que eternamente...


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