Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Às bolandas

Já sabíamos que o Ministério da Educação andava às bolandas, como o interior do casco de uma caravela mal mandada no meio de uma tempestade. Mas há coisas que são tão patéticas que não se compreende como a sociedade fecha os olhos, como que cúmplice. Uma dessas coisas, é o pomposo lançamento do fantástico modelo de avaliação dos professores, engendrado por uma equipa de mentes brilhantes. Suportado por uma lei de algibeira, por cima da qual se deve passar conforme a vontade da ministra, o modelo pressupõe que um erudito conselho científico emane umas fantásticas orientações, com base nas quais as escolas deverão, num apertado prazo de vinte dias úteis, produzir instrumentos para a execução da avaliação. Sem as orientações, nada feito. É como mandar pintar uma parede, mas não dizer de que cor é a pintura. Ah e tal, a ministra dá ordem para que se pinte a parede, dentro de um prazo de vinte dias úteis. De que cor, perguntam as escolas? Os lacaios da ministra, do alto dos seus pedestais, ignoram a necessidade de se conhecer a cor. Os dias vão passando, e a cor não aparece. As escolas começam a ver o caso mal parado e reclamam, avisando que não há milagres e que, depois, não haverá tempo suficiente para a pintura. Os lacaios da ministra continuam a ignorar e, pior que isso, reagem, como que ofendidos, como se as escolas não precisassem de saber de que cor deviam pintar a parede. Passam ainda mais dias. Nada. Mais reclamações. Em público, a ministra faz passar a ideia de que está tudo nos conformes, tudo bem encaminhado, tudo controlado, tudo a andar, e que não há motivos para alaridos. No dia seguinte, algum bom senso cai abruptamente no Ministério da Educação e as escolas são informadas de que, afinal, os vinte dias só começarão a contar depois de serem informadas da cor da pintura. E eu, inculto e ignorante, pergunto: mas a Educação em Portugal está a ser governada por deficitários de inteligência? Lança-se, a meio do ano lectivo, um modelo novo de avaliação dos profissionais, a aplicar de imediato, sem ter sido testado, sem ter sido esclarecido, remetendo para orientações que ainda não existem, exigindo centenas de horas de trabalho que não têm cabimento nos horários normais de trabalho dentro da baliza de qualquer trabalhador de um país civilizado. Lança-se um modelo que é impossível de aplicar directamente no terreno, porque a realidade das escolas é bem diferente do imaginário em que se basearam as mentes brilhantes que o elaboraram. Lança-se um modelo que levanta tantas questões e dúvidas, que só os esclarecimentos dariam para um livro. Lança-se um modelo com tantas falhas e lacunas, que só o amontoado de novas e arbitrárias ordens de remediação dariam para outro livro. Lança-se este modelo, à força, porque há um calendário político nos bastidores. A ministra assim quis, assim pôde e assim mandou. Amén!

publicado por pedro-na-escola às 01:04
link do post | comentar | favorito

~posts recentes

~ E a Terra é plana…

~ A propósito dos melhores…

~ A propósito de oportunida...

~ A propósito das paranóias...

~ Especialistas em educação

~ O que vai ficar por fazer

~ Nuno Crato e a definição ...

~ Mega-Agrupamentos 4 - a p...

~ Mega-Agrupamentos 3

~ Mega-Agrupamentos 2

~ Mega-Agrupamentos

~ O segredo do sucesso nas ...

~ A anedota da vaca

~ Por falar em reduzir as d...

~ Agressividade de autores ...

~ Brincando às competências...

~ Pois, realmente, não foi ...

~ Contas ao número de aluno...

~ Reforço da autoridade dos...

~ Incompetência ao rubro...

~links

~arquivos

~ Julho 2011

~ Junho 2011

~ Maio 2010

~ Abril 2010

~ Março 2010

~ Novembro 2009

~ Outubro 2009

~ Setembro 2009

~ Agosto 2009

~ Julho 2009

~ Junho 2009

~ Maio 2009

~ Abril 2009

~ Fevereiro 2009

~ Janeiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Novembro 2008

~ Outubro 2008

~ Abril 2008

~ Março 2008

~ Fevereiro 2008

~ Janeiro 2008

~chafurdar no blog

 
RSS