Sábado, 1 de Março de 2008

A avaliação da ministra

“1 Não conheço pessoalmente a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Por razões profissionais, mantive com ela duas curtíssimas conversas telefónicas e portanto a avaliação pessoal que faço da sua acção governativa utiliza os mesmos meios de aferição ao alcance de qualquer português: as políticas do ministério, as declarações públicas da ministra e as reacções que produzem.
Feita esta nota prévia, declaro desde já a minha simpatia pela pessoa: gosto da convicção, da forma apaixonada como defende os seus argumentos, do turbilhão de trabalho em que está manifestamente envolvida. Se peca é por excesso: por querer, talvez, fazer em pouco tempo, numa Legislatura, o que talvez devesse caber em duas. Mas também não tenho a certeza disso.
O que tenho a certeza é de que ela anda depressa de mais para a velocidade de um país dominado pelas dinâmicas socioprofissionais, que interioriza a rotina como um direito adquirido e, sobretudo, tem medo de mudar.
A polémica instalada à volta do sistema de avaliação do desempenho dos professores da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário é disso prova evidente. E não pode ser vista como uma contestação isolada. É mais um acto de uma revolta corporativa que começou no dia em que a ministra começou a mudar as regras do pacato dia-a-dia das escolas portuguesas, uma das origens do país que somos.
2 De qualquer forma há aqui, hoje, não é possível escondê-lo, um problema nas escolas que resulta da forma como os professores encaram e tentam resistir às mudanças. Não terá, talvez, a dimensão que é projectada na comunicação social, mas existe.
É um facto.
A contestação, que começou por ser sindical (leia--se: organizada pelo Partido Comunista Português), tem na actualidade uma dimensão geral que deve obrigar a ministra a alguma reflexão, porventura a questionar não o sentido das suas convicções mas o timing de implementação de todas as medidas que considera imprescindíveis para termos uma escola de qualidade - mais profissional e competente.
Digo isto porque sou sensível a uma observação que ontem voltei a encontrar no meio de uma reportagem do Público: "Os professores sentem-se desrespeitados, há um sentimento de desespero."
Este estado de espírito merece reflexão.
Quem, como eu, acredita na necessidade da avaliação, seja nos professores, nos juízes ou nos jornalistas, tem de defender que ela seja explicada, bem percepcionada, assumida por todos os intervenientes, se não com entusiasmo pelo menos com a convicção de que no futuro, ultrapassadas situações pontuais de um ou outro critério a rever ou de alguma injustiça a rectificar, ela possa originar um modelo racional, digno, muito melhor do que o vazio que hoje reina entre a apatia da comunidade, a pouca participação dos pais e o normal espírito rebelde dos alunos.
Os processos de avaliação - a chave de ignição deste movimento - são sempre momentos sensíveis, especialmente quando não há experiência na matéria, como é o caso dos professores. A maior parte deles manifestamente não sabe que os objectivos individuais contra os quais se rebelam são simples adaptações de modelos técnicos que funcionam noutras actividades e praticados pelas grandes empresas especializadas na avaliação de recursos humanos.
Os professores, que tanta justiça clamam para si, deveriam ser mais justos na apreciação que fazem à ministra.
E a propósito das manifestações, em que vão, erradamente, pedir a demissão de Maria de Lurdes Rodrigues, como já se percebeu, cabe-me dizer o seguinte: mal seria que em Portugal ainda pudesse cair um ministro pelas razões que estão sobre a mesa e que, apenas por mero oportunismo político da oposição, se podem comparar às que resultaram na saída do anterior ministro da Saúde.
Se uma das condições para participar nas manifestações anunciadas fosse provar conhecer a legislação que vai tutelar a avaliação dos docentes (Decreto Regulamentar n.º2/2008, publicado no Diário da República, 1.ª série, n.º 7 de 10 de Janeiro deste ano), tê-la lido e compreendido, provavelmente não haveria tanta contestação como aquela que pode vir a desembocar na "marcha de indignação dos professores" convocada para o próximo dia 8.”
in Diário de Notícias, João Marcelino 
 
Umas divagações:
 
um país dominado pelas dinâmicas socioprofissionais, que interioriza a rotina como um direito adquirido e, sobretudo, tem medo de mudar
A rotina é essencial para consolidar práticas e dominar o meio. A estabilidade deveria ser um direito de todo e qualquer trabalhador. Entenda-se, por estabilidade, as regras com que tem de se orientar no dia-a-dia. Não é o medo de mudar que nos aflige, mas, antes, a perpetuação das mudanças, mais mudanças e eternas mudanças. A cada novo ministro do pelouro, cabe uma catadupa de legislação nova, de alterações, de correcções, de remendos e colagens, ao sabor não se sabe bem de quê. Aflige-nos, também, ao fim de décadas, que esta roda circense de mudanças não traga para a escola nada que faça melhorar a qualidade do serviço prestado aos alunos, aos pais e à sociedade! A verdade é que estamos fartos e saturados de mudar… para nada!
 
“o vazio que hoje reina entre a apatia da comunidade, a pouca participação dos pais e o normal espírito rebelde dos alunos”
O maior vazio é a improdutividade mais que evidente da escola! Não contribui, como deveria, para fazer crescer qualitativamente o país, que tanto precisa. Não produz cidadãos cultos, esclarecidos, críticos, responsáveis, competentes e prestáveis. A apatia da sociedade, a pouca participação dos pais e o anormal espírito indisciplinado dos alunos, são apenas o reflexo dessa improdutividade, e não ao contrário!
 
“adaptações de modelos técnicos que funcionam noutras actividades e praticados pelas grandes empresas especializadas na avaliação de recursos humanos
Devemos copiar bons exemplos e boas práticas. Mas, melhor do que copiar, é saber adaptar para produzir efeitos positivos e credíveis. Objectivos individuais ao alcance do trabalhador, sim. Objectivos individuais que extravasam a acção do trabalhador, por dependerem quase em exclusivo de terceiros, não, obrigado. 
publicado por pedro-na-escola às 14:00
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