Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Prós e Contras - 3

A exposição arriscada da ministra foi, também, acompanhada de uma exposição arriscadíssima dos professores presentes. Arriscadíssima porque estamos debaixo da mira da opinião pública que, a meu ver, ainda não se decidiu.

Tal exposição da nossa parte, implica uma responsabilidade acrescida para cada movimento e cada palavra. As palavras têm que ser bem medidas, a entoação de voz bem controlada e a postura global inabalável.

A minha mãezinha, antiga professora primária, começou a deitar as mãos à cabeça quando vieram as primeiras reformas grosseiras na Educação. Pegou-se com os inspectores por ver o descalabro em que iam terminar as medidas impostas e, quando argumentava que as crianças iam começar a deixar a quarta classe sem saberem ler, escrever e fazer contas, os inspectores respondiam-lhe que ela estava ali para obedecer e não para pensar. Reformou-se assim que pôde, desiludida com o sistema para o qual trabalhou toda a sua vida, e nunca mais deu mostras de esperança nas sucessivas mudanças e pontapés no nosso sistema de ensino. Outro dia, a propósito das manifestações de professores na rua, comentou comigo a falta de postura profissional dos professores, que era demasiado evidente nas imagens da TV. Olhei para as imagens, olhei para ela, não percebi, mas ela explicou. É que nós, professores, por termos o papel de educadores, por nos passar pelas mãos toda a nação, temos que manter uma postura que nos torne em referências inquestionáveis para a sociedade, tanto para crianças, como para jovens e também para adultos. Não podemos ir por aí fora, pelas ruas, a cantar, a guinchar, a galhofar, a fazer palhaçadas e a falar para as câmaras de televisão com a mesma linguagem e a mesma entoação que teriam os participantes de uma manifestação de operários do balde de massa. O povo vê e faz contas. Demorei algum tempo até conseguir digerir estes comentários da minha mãe. Mas percebi onde queria chegar. Por causa disso, preocupou-me o desempenho que os nossos colegas iriam ter naquele estúdio, ontem.

A Fernanda Velez foi frontal e objectiva, durante praticamente todo o debate. Tiro-lhe o chapéu e adorava tê-la como colega na mesma escola. Lamento o deslize de postura quando se envolveu numa peixeirada escusada com a ministra. Quando duas pessoas começam a falar ao mesmo tempo, continuando, continuando, levantando a voz e continuando, a isto, chama-se uma peixeirada. Era escusada! Sei que não é nada fácil estar na posição em que ela estava, havia muita pressão e este deslize não lhe tira mérito algum. Passei a ser um seu fã. Mas, fica o reparo.

Descalabro profundo foi mesmo a intervenção de outra colega, da plateia, junto ao jovem colega de Matemática, que borrou por completo todo o debate. Lamento bastante que tenha perdido a cabeça e dado aquele triste espectáculo, como se fosse um arruaceiro de treze anos a saltar em cima da mesa na sala de aula, indignado por a sopa da cantina ter legumes. Será que não teve noção do que fez? Não teve noção que foi advertida várias vezes e que tiveram que lhe desligar o microfone? E, mesmo assim, ainda continuou a falar, a falar, a falar… Deu cabo da nossa imagem perante a opinião pública! Marcamos pontos numas coisas e perdemo-los estupidamente noutras.

Não podemos descer ao nível do senhor da CONFAP, a espumar de raiva e a gritar pelo Salazar. Sabemos fazer melhor que isso. Sabemos estar. Temos que o mostrar, sem deslizes.

publicado por pedro-na-escola às 23:30
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5 comentários:
De pedro a 26 de Fevereiro de 2008 às 23:48
Não vi. Sempre é verdade que gritou pelo Salazar? Comédia do mais alto calibre.


De pedro a 26 de Fevereiro de 2008 às 23:49
Coturno, queria dizer coturno.


De Ana a 27 de Fevereiro de 2008 às 01:07
Ontem, no CE duma escola, a propósito do programa prós e contras, numa conversa ouvida sem intenção de o fazer.. As personagens são a "belinhóbelix", o "Kocó temos que fazer porque sou lambe botas" e "Kacá boa já apanhei um tacho e nem sei como...":

- Ah! e ontem? aquilo não dignificou nada os professores. Deixaram ficar muito mal vista a classe dos professores.(belinhóbelix)
- E já reparaste k só são professores do norte? Isto é estranho.(Káca já apanhei um tacho e nem sei como...)
- Não havia lá ninguém dos conselhos executivos. Esses é que sabem bem porque estão no terreno.(Kocó temos que fazer porque sou lambe botas)

"Palavras para quê? São professores portugueses contaminados pelo vírus da partidarite, do dogmatismo e...,acima de tudo, da estupidez."

Infelizmento para todos aqueles que se recusam a fechar as portas do cérebro " Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar...
Realmente, já dizia Pessoa que a inconsciência é o caminho para a felicidade...

Qualquer semelhança entre este texto e a realidade não é mera coincidência!!!



De manuel a 28 de Fevereiro de 2008 às 22:22
Claro que o jovem colega não se portou com o verniz e a postura que devemos ter, mas isso não lhe tira o mérito e a coragem de ter sido o primeiro a dizer a esta ministra que é mentirosa (compulsiva, digo eu).
Aliás, não será isso que pensamos dela e de praticamente todos os políticos?


De pedro-na-escola a 29 de Fevereiro de 2008 às 13:47
O jovem colega de Matemática portou-se muito bem. Atrevido, mas realista. Adorei o dedo apontado ao inspector e a fita da ministra como se não tivesse sido ordem sua...
Quem não esteve bem foi a colega que estava ao lado dele... tal como descrevi no post...


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