Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Prós e Contras - 2

O que faltou dizer sobre o modelo de avaliação do desempenho? Para mim, faltou um discurso organizado sobre a posição da classe docente em relação ao modelo.
 
Faltou dizer por que motivo queremos ser avaliados. A opinião pública critica-nos porque, supostamente, não queremos ser avaliados. Nós reagimos, indignados, argumentando que não, não é nada disso, nós queremos ser avaliados. A opinião pública insiste que não queremos, nós respondemos que queremos. Bola para lá, bola para cá. A ministra deve pensar que isto é uma anedota muito proveitosa para os seus intentos.
 
Acho que temos um discurso patético que só abona em favor da ministra, a salvadora da pátria, que, a mando do mandante supremo, vai finalmente implementar um sistema de avaliação do desempenho dos professores, o tal que faltava há 30 anos.
 
Eu, que sou barbeiro, teria posto as coisas da seguinte forma, ali, frente a frente com a ministra, catapultado para os lares de milhares de portugueses:
 
1. Apesar de ter havido, durante estes anos todos, um sistema de avaliação do desempenho dos professores, este não era um sistema que, de facto, penalizasse os maus profissionais e premiasse os profissionais acima da média. A norma era correr toda a gente a “satisfaz” e ponto final. É um facto e todos os professores têm essa noção. Ficava-nos bem assumir esta realidade.
 
2. É um facto que, como em todas as profissões, há bons profissionais e maus profissionais. Nas nossas escolas, há bons professores e maus professores. Nós, os professores razoáveis e os professores bons, não queremos conviver com maus professores, não queremos que manchem a nossa reputação e não queremos que sejam tratados profissionalmente como se fossem razoáveis. Mas, quando falamos de maus professores, estamos a falar de quantos? Fazendo contas por alto, às escolas por onde passei e aos maus professores com quem convivi, apontaria a coisa para 1 em cada 40, algo como 2,5%. Nada que contribua, efectivamente, para a vergonhosa posição em que está o ensino português no panorama mundial.
 
3. Queremos ser avaliados, porque queremos que os maus professores sejam afastados, seja por uma péssima formação moral ou por uma descarada falta de brio e empenho, e, aproveitando a onda, queremos que haja professores a quem seja reconhecido o seu mérito, o seu exemplo, o seu empenho e a sua dedicação, sem ser necessário pedinchar por tal.
 
4. O modelo lançado pelo ME não é recebido com credibilidade pelos professores, porquê? Três factores são o bastante:
 
a) Pressupõe um corpo de elite altamente qualificado, os fantásticos professores titulares, encarregues de avaliar todos os outros, que foram promovidos a esse posto sem mérito efectivo. Em vez disso, chegaram lá por pouco mais que uma simples contagem de tempo de serviço e sem terem sido avaliados, sendo óbvio que, e à parte das competências e formação necessários para avaliar outros professores, entre tantos titulares encontrar-se-ão dos que fazem parte daqueles 2,5% a afastar.
 
b) Nenhum sistema de avaliação que tenha quotas pode ser chamado “sistema de avaliação”. As quotas podem usar-se para acessos e progressões, conforme as necessidades e as vontades políticas, mas nunca podem condicionar as avaliações em si. Um avaliador não pode ter numa mão a avaliação isenta do seu avaliado e na outra uma fasquia que não pode ultrapassar, sendo que esta última obriga a mexidas na primeira, retirando toda a credibilidade e profissionalismo ao processo, por uma grosseira adulteração de números. Tal e qual como se eu, enquanto professor, tivesse um número máximo de quatros e cinco para dar aos meus alunos, no final do ano.
 
c) O modelo foi atirado às escolas de uma forma extremamente atabalhoada e pouco profissional, com uma agressividade muito irracional. Os professores são peritos em avaliar alunos, nas suas disciplinas, mas não foram formados para avaliar professores, nem das suas disciplinas, e muito menos de outras alheias. Pretende-se que façam uma tarefa sem terem tido formação para tal. O modelo pressupõe uma escola modelo, que corresponde a apenas uma fatia da realidade, deixando em aberto dezenas de dúvidas na sua aplicação, com inúmeras lacunas, tal como se pôde verificar pela quantidade impressionante de questões deixadas no Fórum da DGRHE. Faltou um Conselho Científico a funcionar e os bois foram ultrapassados pela carroça. Faltaram matérias por regulamentar e os bois foram ultrapassados pela carroça. Que está por detrás desta pressa enorme que levou à estipulação de prazos irrealistas para a implementação, a meio de um ano lectivo?
publicado por pedro-na-escola às 22:42
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