Domingo, 15 de Novembro de 2009
Os Planos, as Metas e outras patetices
Ministério da Educação define Metas de Aprendizagem
10 de Nov de 2009
O Ministério da Educação (ME) deu início ao processo de definição das metas de aprendizagem a atingir pelos alunos em cada ciclo, bem como o seu desenvolvimento por ano de escolaridade.
Esta medida insere-se no estabelecimento de um quadro de Níveis de Referência para o Currículo Nacional, que se iniciará com a determinação das metas de aprendizagem para cada ciclo e seu desenvolvimento por ano e por disciplina ou área disciplinar, tendo em conta os padrões internacionais, a experiência portuguesa e os resultados da investigação sobre factores que determinam a eficiência dos sistemas educativos.
Destina-se a proporcionar um instrumento de orientação e controlo útil aos docentes, às famílias e aos próprios alunos, que permitirá ajustar o ensino a metas comuns e apoiar com maior segurança os diferentes percursos escolares.
A definição de Níveis de Referência para o Currículo Nacional tem vindo a ser realizada em vários países, com assinaláveis impactos na qualidade e na exigência dos sistemas educativos e com efeitos positivos nos níveis gerais dos resultados escolares.
A coordenação da equipa responsável pelo trabalho científico será assegurada por Natércio Afonso, do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
O primeiro relatório, com as linhas gerais do Quadro de Níveis de Referência para o Currículo Nacional, será entregue no prazo de um mês, devendo as metas de aprendizagem para cada ciclo e área do currículo ser definidas até ao final do ano lectivo.
A definição de metas de aprendizagem integra-se num processo de aperfeiçoamento do Currículo Nacional, no quadro do qual o ME tomará outras medidas, nomeadamente relativas à articulação e à sequencialidade das aprendizagens, à gestão da organização curricular e da carga horária das áreas disciplinares.
A par desta intervenção na área do currículo e visando proporcionar condições que permitam concentrar a actividade docente na prática pedagógica, o ME emitirá orientações destinadas a simplificar e a desburocratizar procedimentos administrativos.
Quando Maria de Lurdes Rodrigues chegou ao poder, uma das primeiras ideias brilhantes de sua alteza foi a criação dos Planos (de recuperação, de acompanhamento, de desenvolvimento) para, finalmente, melhorar a Educação. Nas escolas, se bem me lembro, levantou-se um coro de gargalhadas pela patetice da ideia, pois se um aluno não quiser aprender e os pais não se importarem que ele não aprenda, não é com falinhas mansas que se resolve o problema, e muito menos com papéis.
Agora, foi a vez de Isabel Alçada chegar ao poder e começar a brincar com a Educação, impondo esta iluminada ideia das “metas de aprendizagem”. Já se começa a ouvir um coro de gargalhadas, ou é impressão minha? Até hoje, os professores orientavam-se sem metas (?), ensinavam o que lhes dava na gana, sem a noção do que é que os seus alunos deviam saber na sua disciplina e em determinado ano de escolaridade. Aliás, o estabelecimento destas “metas” será especialmente útil nos casos de alunos que não querem aprender rigorosamente nada! Pois claro! Chegou mais uma salvadora da nação...
Preocupa-me saber que ainda mais medidas virão, já de seguida. Germinadas nos gabinetes daqueles que não sabem o que se passa dentro das paredes das escolas, dentro das cabeças dos alunos e dentro das casas das famílias, mas que se fartam de inventar, década após década, mais e mais patetices para aplicação directa no mundo que desconhecem. As “investigações” desta gente têm um padrão comum de consequências: inventam-se problemas que não existem, para os quais se encontram soluções brilhantes que, obviamente, de nada servirão para resolver os problemas reais. Geralmente, em vez de resolver, só complicam.
Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Por falar em “irresponsabilidade”
Parece que o senhor primeiro-ministro considera uma “irresponsabilidade” suspender o seu modelo-faz-de-conta de avaliação dos professores. Parece que o senhor primeiro-ministro não saberia explicar aos professores que tiveram muito bom e excelente que isso ia “tudo à vida”.
Por falar em “irresponsabilidade”...
- Irresponsabilidade, é fazer crer ao país que se dividiu uma classe em duas, argumentando a intenção de criar uma elite dentro das escolas, quando, na prática, a promoção dos professores à suposta “elite” foi feita apenas com base em critérios administrativos.
- Irresponsabilidade, é promover professores à suposta “elite” das escolas, transformando-os em avaliadores, arrastando, neste processo, vários maus profissionais que deveriam ser afastados do sistema de ensino.
- Irresponsabilidade, é fazer crer ao país que há dezenas de milhar de professores já avaliados, muitos deles com Muito Bom e Excelente, quando essa avaliação não tem nada de seriedade, assim como as classificações obtidas não traduzem qualquer destaque no desempenho ou no mérito de cada um.
- Irresponsabilidade, é permitir (e elogiar) um sistema de avaliação que classifica professores perfeitamente regulares e medianos com uma pomposa menção de “Excelente”, só porque tiveram sorte na escola em que foram colocados e cumpriram com uma meia dúzia de regras patéticas que em nada revelam mérito no desempenho.
- Irresponsabilidade, é ordenar a avaliação de um misterioso “desempenho” de membros de conselhos executivos, com base em critérios curriculares e administrativos que os visados desconheciam e que em nada revelam o verdadeiro desempenho de membros de órgãos de gestão de uma instituição de serviço público.
- Irresponsabilidade, é classificar um Director com a menção de Regular, só porque lhe faltou um Mestrado e não implementou um CEF na sua escola, sem que ele alguma vez soubesse que qualquer um daqueles aspectos teria influência na sua avaliação.
- Irresponsabilidade, é oferecer computadores portáteis a crianças e jovens, com acesso livre ao mundo da pornografia, anunciando esta medida como um supostamente importante passo para o desenvolvendo do país, quando, na verdade, apenas se distribuiu brinquedos novos a troco de nada, contribuindo, obviamente, para que estas crianças e jovens tenham um motivo ainda maior para dedicarem menos tempo ao estudo em casa.
- Irresponsabilidade, é oferecer diplomas do 12º ano a troco de um grau de exigência abaixo de um 5º ano de escolaridade.
- Irresponsabilidade, é conseguir enraizar, nas crianças do 1º ciclo e respectivas famílias, que a aprendizagem do Inglês é uma brincadeira.
- Irresponsabilidade, é alargar o número de anos da escolaridade obrigatória, quando uma tão grande fatia da população jovem do país, assim como as respectivas famílias, não reconhece à Escola o papel nobre que esta tem para o futuro de um país. Não bastando o não reconhecimento, despreza por completo esse papel.
- Irresponsabilidade, é não ter uma única exigência de cumprimento de deveres, nem um único apuro de responsabilidades, para com os alunos (e respectivas famílias) que se acham no direito de não aprender e de poder prejudicar as aprendizagens dos outros, e com quem o Estado esbanja anualmente milhares de euros.
Sábado, 24 de Outubro de 2009
Laborinho Lúcio sobre a autoridade e disciplina
Autoridade e disciplina é um “direito dos alunos e não um poder da escola”
23.10.2009 - 16:21 (Lusa)
O ex-ministro da Justiça Laborinho Lúcio manifestou-se hoje defensor da “autoridade e disciplina” na escola mas enquanto “direito dos alunos” e não “poder da escola”, sugerindo uma “inversão” nesse domínio.
“A autoridade e a disciplina entre nós, do ponto de vista cultural, é mais tida como um poder da escola e não necessariamente como um direito do aluno e precisamos de fazer alguma inversão nesse domínio”, afirmou.
Laborinho Lúcio falava aos jornalistas à margem do encontro “De SIM e de NÃO se faz Educação”, a decorrer até sábado em Coimbra e que tem como ponto de partida “A violência infanto-juvenil em contexto escolar a par da emergência de um novo fenómeno: a violência de filhos contra os pais, em contexto familiar”.
Embora admita partilhar, em alguns aspectos, a ideia de que a escola actual é “demasiado branda em termos de disciplina”, entende que a violência nas escolas deve ser “avaliada sob vários pontos de vista”.
“Não podemos olhar para as situações de indisciplina e de violência na escola e observá-las apenas como resultado, temos de analisar os factores, compreender nomeadamente do ponto de vista estratégico o que pode mudar”, disse.
Para Laborinho Lúcio, os alunos têm “direito à autoridade, à disciplina, mas exercida em seu nome e não da escola”, daí que preconize “uma reflexão” em torno da questão.
É na escola, referiu, que os alunos “fazem grande parte do seu processo de aprendizagem social e precisam, evidentemente, de conhecer os limites interiores que têm de impor a si próprios, de compreender a importância da autoridade e da disciplina como um bem deles próprios”.
O antigo governante salientou a necessidade do sistema educativo “preparar as crianças e os jovens para o pensamento crítico, para a sua dimensão cidadã, a capacidade de escolher e não apenas para de agir”.
Defendeu uma “luta contra o pensamento único que parece vigorar”, para que “não se formem apenas competentes para uma sociedade de informação e do conhecimento, mas também cidadãos capazes de dizer não quando há que dizer não e de lutar pela afirmativa quando entendem que é isso que deve ser”.
Resta saber com que intenção este senhor se pronuncia desta forma sobre o tema. Alguma encomenda? Opinião genuína? Nos tempos que correm (era “Sócrates”, tudo é de desconfiar).
Seja como for, o que ele diz é um facto. O povo português usa a expressão “chatear o professor”, e não “prejudicar os outros alunos”, quando se refere à situação de um ou mais alunos perturbarem uma aula.
Nunca se fala no prejuízo que a indisciplina traz às aprendizagens dos alunos. À excepção dos próprios professores, Mas, como a ideia de “chatear o professor” soa bem (soa a 25 de Abril) e a pobreza de espírito não dá para mais, os alertas dos professores são ignorados por completo. E assim andamos.
A realidade é que, em matéria de disciplina, os alunos portugueses têm o pleno direito de prejudicar (e comprometer) as aprendizagens dos colegas. O Estado permite, os pais consentem.
Não se consegue “preparar as crianças e os jovens para o pensamento crítico, para a sua dimensão cidadã, a capacidade de escolher e não apenas para de agir”, sem que haja ambiente sereno para o desenvolvimento dessas competências. Considerando que serenidade e indisciplina são ambientes opostos, é fácil perceber o rumo da escola.
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Sobre a nova Ministra da Educação
Pessoalmente, estou-me nas tintas para o passado de Isabel Alçada. Até podia ter sido Prémio Nobel da Literatura ou inventora da roda. Os factos, contudo, estão bem à vista:
1. José Sócrates é um homem que não tem pudor nem escrúpulos quanto se mete a aldrabar o país, esgrimindo argumentos da treta como se fossem verdades intocáveis e inventando soluções milagrosas para problemas que não existem. Na Educação, que é a área que eu domino, as suas políticas foram baseadas na aldrabice, como se o Salvador tivesse descido do Céu à Terra, contribuindo para um ainda maior afundamento do país e ganhando os aplausos de um povo bruto e ignorante.
2. Isabel Alçada apoiou e apoia José Sócrates e, por arrastamento ou por convicção, as suas políticas para a Educação. Ou seja, é uma mulher que alinha com aldrabices: com o sistemático sacudir das culpas para cima dos professores, com as estratégias para forçar estatísticas favoráveis, com a divisão de uma carreira por critérios administrativos e óbvios objectivos economicistas, com a implementação e propaganda de medidas que são autênticos disparates, e por aí fora.
3. Andar pelas escolas, não é o mesmo que conhecer bem a realidade das escolas. Na Educação, faz falta quem saiba exactamente porque é que os nossos alunos têm insucesso! Que factores influenciam esse insucesso: os pais, o ambiente familiar, o ambiente na sala de aula, etc. O que se passa exactamente dentro das salas de aula das nossas escolas! É preciso conhecer mesmo muito bem a realidade das escolas para poder ousar fazer algo pela Educação no nosso país. Escrever histórias de aventuras e andar pelas escolas não basta. Apoiar José Sócrates é, por outro lado, o sinal claro de que não serve!
Somos todos bons
Agora que saiu o modelo-faz-de-conta para avaliar o desempenho dos membros dos órgãos de gestão, metemos “mãos à obra” e fizemos a pontuação da nossa anterior equipa do Conselho Executivo: um presidente e três vice-presidentes.
Deu “Bom” para todos, com umas diferenças centesimais muito interessantes. E porque é que deu pontuações diferentes entre os quatro? Terá sido por um desempenho diferente? Claro que não. Valter Lemos, ou qualquer outro triste da sua equipa, seria incapaz de inventar qualquer coisa que, de facto, medisse o mérito.
Assim, o presidente e um vice-presidente tiveram pontuação superior aos outros dois membros, onde me incluo, porque já tinham estado, anteriormente, em funções num conselho executivo (entre três e seis anos). Outro dos vice-presidentes, teve pontuação inferior à minha, porque tem um bacharelato, enquanto eu tenho uma licenciatura.
Chamam a isto avaliação de desempenho.
Eu consigo encher uma folha A4 com possíveis nomes para chamar aos artistas de circo que inventaram esta Portaria, mas, como se pode imaginar, não são nomes que se usem em público...
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Mais uma do mestre das palhaçadas
Valter Lemos assinou a Portaria n.º 1317/2009 (de 21 de Outubro), estabelece um regime transitório de avaliação de desempenho dos membros das direcções executivas, comissões executivas instaladoras, directores, subdirectores e adjuntos, e directores dos centros de formação. Diz-me directamente respeito, por ter feito parte do conselho executivo da minha escola.
Uma autêntica palhaçada em 12 artigos. Intragável, na leitura. Intragável, no conceito.
“A avaliação do desempenho dos docentes abrangidos pela presente portaria é efectuada mediante a ponderação do seu currículo”. Como se eu me estivesse a candidatar a um emprego.
“Doutoramento ou mestrado corresponde a 5 pontos; Licenciatura corresponde a 4 pontos; Bacharelato corresponde a 3 pontos”. Podiam ter avisado antes, que assim eu tinha ido a correr fazer um Mestrado à pressão e já marchava mais um pontinho!
“Mais de seis anos como membro do órgão de gestão e administração, seguidos ou interpolados, corresponde a 5 pontos”. Lá está, a mesma onda do concurso para Titulares. O tempo é que dá pontos e não o desempenho.
“Agrupamentos de escolas/escolas não agrupadas que, para além de ministrarem o ensino regular, tenham promovido, organizado e procedido à criação de cursos profissionais ou CEF, atribuição de 4 pontos”. Vá lá, 4 pontos para a malta.
“Ter o agrupamento de escolas/escolas não agrupadas sido sujeito a avaliação externa e obtido, no domínio liderança, classificação igual ou superior a Bom, atribuição de 5 pontos”. Pronto, 5 pontos para quase toda a gente. Excepto os que não tiveram avaliação externa, que até nem sabiam que isso dava pontos na avaliação de desempenho.
Estou com algumas dificuldades em encontrar a parte do “desempenho” no meio disto tudo, mas, enfim.
É porreiro ser-se avaliado por um determinado período de tempo, sem saber com que regras e com que critérios... não é?
Esta portaria é uma palhaçada, com o único objectivo de remendar mais uma asneira. Saiu outra asneira, mas, convenhamos que, melhor que isto, não seria de esperar.
Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
O desafio-faz-de-conta de João Alvarenga
A propósito do artigo de opinião de João Alvarenga) Presidente da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo), no jornal Público (17/10/2009), no caderno sobre os rankings de 2009, apeteceu-me especular sobre como seria se o país aceitasse o desafio que ele deixou:
"Se a supremacia do privado no ranking é fruto apenas da origem dos alunos, então deixem que todos optem, querendo, pelo privado. Depois avaliaremos o resultado".
Vamos lá. Num determinado concelho, existem três escolas: A, B e C. As duas primeiras são públicas e a última (C) é privada. Todos os alunos deste concelho têm direito a um cheque-ensino, que permite aos pais inscrevê-los na escola que quiserem, sendo que as “propinas” são iguais em qualquer das escolas, sem custos adicionais, nem letras minúsculas.
No ranking do último ano, as posições foram as seguintes:
- escola A: 900.
- escola B: 300.
- escola C: 100.
As escolas têm a seguinte capacidade (para acolher alunos):
- escola A: 300.
- escola B: 600.
- escola C: 100.
No concelho existem 1000 alunos. Considere-se que nenhuma das três escolas tem critérios para continuidade dos seus alunos, pelo que os 1000 alunos estão automaticamente em igualdade de circunstâncias no acesso a qualquer uma delas.
Presumo que a escola C seria a mais pretendida, por ter os melhores resultados no ano anterior, pelo que 900 alunos do concelho ficariam de fora. Com que critério? Não se sabe, pois João Alvarenga não disse.
Presumo, igualmente, que a escola B viria em segundo lugar na escolha dos outros 900 pais. Sorte que cabem lá 600 alunos. Resta saber com base em que critérios é que os outros 300 alunos seriam recambiados para a escola A.
Presumo, ainda, que, dos 1000 alunos do concelho, haja uns 50 cujos pais se estão bem nas tintas para essa coisa da escola e inscrevam os filhos na que ficar mais perto e dê para ir de carro. Se deixarem.
Critérios, pois. Talvez uns envelopes discretamente passados por baixo da mesa? Provas de selecção? Trocas de favores? Uns presuntos e uns queijos? Um borrego?
O desafio de João Alvarenga é, na prática, e salvo melhor explicação, transformar as escolas públicas em escolas privadas, no que toca à selecção da massa humana que se senta diariamente nas cadeiras das salas de aula. Todas, menos uma, por concelho: aquela que ficar com os malucos, arruaceiros, lunáticos, marginais, chanfrados, aspirantes a delinquentes, drogados, alcoólicos, etc., que não foram aceites nas outras.
Ou seja, o desafio de João Alvarenga é, na prática, uma patetice! Ou não. Se os malucos, arruaceiros, etc., ficarem concentrados todos na mesma escola, num gueto institucional, é certo que o desempenho dos alunos portugueses – como um todo – melhorará substancialmente. No exemplo que dei, em vez de 900 alunos sujeitos a conviver nas salas de aula com desestabilizadores, só haveria 300, incluindo os próprios. Visto doutro lado, em vez de termos apenas 100 alunos poupados ao convívio com quem não quer aprender, teríamos 700. Não está mal pensado. Tem muitas potencialidades, este desafio.
Aproveitei, também, esta suposta crença dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo: “Acreditamos ainda que todos os alunos são capazes de aprender.”
Aproveitei, porque também quero dizer, em nome dos Estabelecimentos de Ensino Público, que sabemos muito bem que todos os alunos são capazes de aprender! E sabemos, melhor que ninguém, que muitos deles não querem mesmo aprender e nisso têm o apoio dos respectivos pais!
Domingo, 18 de Outubro de 2009
Um desafio dos rankings a que ninguém se atreve
Sim, ainda os rankings, porque o jornal Público ainda agora publicou o seu ranking para o povo degustar.
O desafio que aqui proponho, mas ao qual ninguém se atreveria, é muito simples: uma troca directa, e sem excepções, de todos os alunos, entre duas escolas – uma no topo do ranking e outra no fundo. Preferencialmente entre uma privada do topo e uma pública do fundo.
Perante o desafio, gostaria de conhecer as reacções de vários intervenientes.
Os pais dos alunos da escola privada do topo do ranking
Pânico? Afinal de contas, os meninos não se iriam misturar com a “escumalha” que não quer nem deixa aprender. Só mudariam as instalações e os professores. O factor “professores” teria peso? Ou nem por isso? Sempre há aquele mito de que os professores das escolas privadas trabalham muito mais do que os das escolas públicas (ou que estes nem sequer trabalham), que contrasta com a realidade contada pelo director do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian (a melhor escola pública em 2009), na qual a mesma professora trabalhou muito mais numa escola das últimas 100 do ranking (2008, no Cerco) do que agora, na sua escola (do topo).
A Direcção da escola privada do topo do ranking
Teoricamente, segundo a peregrina ideia de que os professores das escolas privadas trabalham muito mais do que os das escolas públicas, para além dos “segredos” do clima de exigência e de trabalho e de dedicação e blá, blá, blá, que os directores quase sempre argumentam quando abordados por jornalistas, a escola privada conseguiria a proeza de pegar nos alunos de uma escola pública do fundo do ranking e obter excelentes resultados. Certo? Claro que sim...
Os pais dos alunos da escola pública do fundo do ranking
Euforia? Atrevo-me a sugerir que os pais conscienciosos olhariam esta experiência com alguma indiferença. Seria? Tenho alguma curiosidade. Os factores que prejudicam as aprendizagens dos filhos (dos pais conscienciosos) continuariam presentes, nas turmas.
A Direcção da escola pública do fundo do ranking
Na qualidade de membro do (ex) conselho executivo de uma escola do fundo do ranking (últimas 100, em 2008), eu diria que não era preciso tanto. Só pedia que o Estado ganhasse um pouco de juízo e “acertasse o passo” aos pais de meia dúzia dos nossos alunos. Era o suficiente para, no ranking, rapidamente mordermos os calcanhares a essa escola privada.
Enfim, fica o desafio. Poderia abrir os olhos a algumas pessoas. Ou talvez não, porque “o pior cego é aquele que não quer ver”...
Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
Avaliada vira avaliadora e safa-se de ser avaliada
Parece que é a nova moda, na minha escola.
Quase dois terços dos professores querem ser avaliados segundo o actual modelo-faz-de-conta. Os que requereram avaliação por um professor da mesma área, geram uma situação deveras cómica e patética, ao bom estilo do primeiro-ministro Sócrates.
Exemplo. A professora A e a professora B, da mesma área, requerem ser avaliadas. A professora A, mais velha que a professora B, vai passar a avaliadora. Por tal, fica isenta de avaliação, devido à promoção.
Ou seja, a professora A, que pode ser uma nódoa, passa a avaliar uma colega, sem que o sistema verifique, em primeiro lugar, se ela é capaz de dar aulas em condições, se é uma pessoa isenta, se é capaz de avaliar um colega, etc. Nada disso. Passa automaticamente a avaliadora e livra-se de ser avaliada, apesar de ter pedido para ser avaliada com observação de aulas. A menção da sua avaliação, na qual deixou de entrar a observação de aulas, vai reger-se por outra quota diferente da quota da sua colega B.
Isto, na minha humilde opinião, não tem ponta por onde se pegue. É um perfeito disparate, da cabeça aos pés!
Infelizmente, este é um país onde reina a pobreza de espírito, pelo que o povo achou que assim é o máximo, ter gente que impõe disparates destes à frente de um Governo, e toca a votar outra vez no homem.
Só que, este não é um caso único. Na verdade, está a tornar-se moda na minha escola.
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
Como tropeçar e cair 900 lugares no ranking nacional
Afinal, a escalada não foi de 700 lugares, mas 900. A senhora é que se tinha enganado. Eu bem que tinha a ideia que no ano passado a coisa tinha sido muito negra. Andei à procura de uns ficheiros com os rankings do ano passado e… zás! Um salto de 900 lugares.
Já que andava à procura dos rankings de 2008, aproveitei a onda e tropecei nos de 2007. Não me lembrava de nenhuma desgraça em 2007 e senti curiosidade sobre o percurso 2007-2009.
Ora, em 2007, estávamos sensivelmente na mesma posição que em 2009. Os exames de 2008 é que foram o descalabro, tropeçámos e caímos 900 lugares. Este ano, voltámos à “normalidade”.
Toca a fazer um apelo à memória e analisar que tipo de alunos tínhamos em 2007 e que tipo tínhamos em 2008, que pudesse estar relacionado com tamanho solavanco.
Assim sendo, em 2007 tínhamos quase uma dezena de alunos com perspectivas de prosseguirem estudos por aí fora até uma faculdade de medicina ou uma engenharia, ou algo apetecível. E tinham notas a condizer. Depois sobravam uns quantos mais apáticos e outros virados mais para as gajas e os gajos e as motas e uns biscates numa qualquer gelataria na Alemanha. Mas havia um corpo de alunos a sério.
Em 2008, haveria qualquer coisa como uma meia dúzia de alunos com algum esbatido interesse em prosseguirem estudos no secundário e no ensino superior, mas, infelizmente, eram o produto acabado de um 3º ciclo altamente perturbado por colegas malucos. Ou seja, não havia um único aluno que pudéssemos considerar “bom”. À escolha, havia “mediano”, “fraco” e “nulo”. O resultado, pois claro, foi uma queda de 900 lugares.
Em 2009, voltámos a ter um corpo de alunos com perspectivas de prosseguimento de estudos, blá, blá, blá, e o resto já se sabe.
Ou seja, na prática, não trepámos 900 lugares no ranking. Na prática, tivemos foi a prova mais que evidente de que são os próprios alunos e os respectivos pais que condicionam o sucesso, e não outros factores como os professores, os apoios, a escola, o dinheiro, e tal, e tal, e tal...